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Jana Lauxen
Um Presente de Junkie
Uma menina vestiu-se de cavaleiro
Mas saiu a pé pelo mundo afora.
Desejando o amor que Calíope um dia encontrou
nos braços de um Corso viciado e atormentado por alucinações más.
Um zepelim cortou os céus de uma meninice perdida
no fundo de um baú cor de rosa.
- Se queres encontrar Calíope e seu amor amargurado, escute o conselho de um velho comandante: quando passar, doce criança, não deixe feridos.
Pela Escandinávia
Lemingues fugiam do frio mas caíam nos fiordes no mar.
Todos diziam que eles buscavam a morte;
Mas a menina sabia, de um modo inexplicável de compreensão,
Que tudo que eles desejavam era um pouco de calor.
Quando cruzava oceanos ainda cobertos pelo desconhecimento dos homens – ora, tão bobos
À bordo de um navio pirata,
Com bucaneiros bêbados, cambaleantes, cheios de maldade e amor,
A menina ouviu seu capitão gritar, do convés, uma garrafa de rum na mão esquerda:
- Se não fosse por nós, bárbaros, o mundo não teria arte, não teria beleza.
E o pai, cheio de heroína em suas veias bailarinas
Não tendo mais nada a proporcionar ao filho herege
Ofereceu-lhe o que ainda tinha para dar:
um rim.
Um rim viciado em tantas ínas.
Um rim é um presente de junkie.
Pelas frestas mais imundas da vida humana
A menina encontrou quem da pobreza levantasse uma bandeira
Fazendo da fome um distintivo de honra.
Todos esperavam em uma estação
onde todos os destinos eram errados e fantasmáticos.
- É tarde demais para o prazer, tarde demais para qualquer coisa que nos faça feliz.
Ela discordou e por isso teve de ir embora.
Com as moedas que ganhou de transeuntes cegos e fátuos
O músico que era mendigo comprou veneno.
Morreu sozinho em um sótão abandonado
Onde ainda ontem funcionava uma taverna de animadas mulheres
Dançando em suas saias cheias de rendas, fendas e paetês.
Em um guardanapo
A menina escreveu palavras sem sentido
E soube, desde então, que o homem move-se por
Paixão
Dor
Lucro
Ou Desastre
E qualquer outro caminho levará ao seu próprio sexo
e ao seu próprio estômago.
O homem cometia pecados santos.
A irmã má tinha um coração parado, como um relógio quebrado.
E Calíope oferecia tudo o que tinha por um pedacinho de paz
E Calíope virava outra lenda em um coração vazio.
Informações sobre a autora:
Continuo dando as ordens lá no meu blogue.
Também sou co-editora da versão brasileira do site inglês 3:AM Magazine e, orgulhosamente, e-ditora do E-Blogue.com.
Estou ainda organizando uma antologia de contos policiais brasileiros pelo selo Anthology, da editora Multifoco, chamada Assassinos S/A.
E vira e mexe, claro: meto meu bedelho aqui e ali.
5 comments Março 30, 2009