II – Num canto qualquer…
Então, sempre que caí a primeira gota de chuva na tarde, ela se abandona na janela… Sente saudades da infância e da inocência antiga, quando o relógio ficava esquecido na parede e a vida se resumia em descobrir qual brincadeira seria escolhida naquele dia… E ela ouve no silencio da chuva a própria voz chamando as outras crianças da rua e sente na poça d´água que se esquece na calçada os próprios passos correndo acelerado e respira fundo… Sente na pele a chuva tardia fugindo dos olhos…
O tempo de hoje não pode ser esquecido ou abandonado na parede de casa. Vive atento no pulso, no passo, nos movimentos e na saudade que pede (quase implora) um instante que seja – de felicidade.
(Lunna Montez´zinny Guedes, Outros Tempos)
INTIMISMO
Mara Inez MoraesEstranha… essa capacidade de
Ser… estar…
Ficar, no alto, no céu…
Diante do imensurável… e
C
A
I
R
Fundo no abismo!
Ir do céu ao inferno em instantes…
Ser insignificante.
Estar diante do nada,
ficar desesperada frente ao inevitável…
sangrar feridas… aos pedaços
enfrentar dores horríveis que rasgam a carne!
Deparar-me com a destruição…
a avassaladora destruição, da decepção!
Ser só…
Estar só…
Ficar só…
Perceber a dimensão do inferno…
Avaliar a solidão!
Diante do inexpugnável…
ACORDAR!
Identificar o pesadelo,
em todos os sentidos que
afloram
reagem
permeiam a pele
percorrem artérias
agregam células…
Diante do inexplicável…
no remoto momento,
a atitude
a sutil intenção de vôo
a imensa EMOÇÃO!
Ser…
Estar…
Viver…
Reviver do NADA!
Diante de TUDO…
Progredir!
Das profundezas do ser
à leveza de ser
alguém que vive
plena
imensamente feliz
emocionalmente vivaz
frente à vida!
Frente à oportunidade de
perceber a vida por si!
Diante da imensurável
força do AMOR
que constrói
que expande
que se faz VIDA
por si mesma…
alenta
acalenta
embala
canta
encanta…
Imensamente revigorada…
de volta ao céu… ao paraíso…
deixando pra trás as agruras do inferno.
Abençoada!
Diante do esplendor do SER!
Estar… poder sentir,
viver plenamente!
Diante do poder do amor
da benção do amor
universal
incondicional
que é AMAR A DEUS!
Diante de um ANJO DE DEUS,
que vem através de meu filho
e me chama de avó!!!
LOBO
David Nobrega
Por mais habituados ao escuro que sejam meus olhos, este beco imundo me oprime em sua total ausência de luz.
Estou aqui escondido, aguardando por quem sabe uma vítima ou um inimigo. Mesmo com o fedor nauseante e onipresente em meio ao lixo, qualquer corpo quente e pulsante seria percebido por mim em segundos.
Mesmo tendo sido criado dentro dos padrões normais da fina educação de minha classe social, estes meus sentidos altamente desenvolvidos fazem a diferença de minha personalidade, alterando a todo instante meus rumos pela vida.
Meus pais, ao me expulsarem de sua casa ainda um garoto, imaginaram talvés que eu encontrasse a morte nas ruas, livrando assim a sociedade do empecilho que eles mesmos haviam gerado.
O primeiro corpo que tomei como alimento foi deplorável. Um bêbado imundo, com todos os gostos de todos os vícios humanos me fez sentir uma variação enlouquecida de sabores. Sabores que odiei e que me fizeram pensar que talvés esse não fosse o alimento necessário para minha vida.
Noites após, zonzo de fome e necessidade, uma prostituta jovem e recém-saída de seu apartamento da zona do meretrício, tão criança que me parecia sentir ainda o cheiro do leite de sua mãe, fora a melhor refeição que já houvera conseguido. Tenra, com um sangue doce e suave como se fosse vinho das melhores safras. Me servi de seu sangue ao goles. Banquete ensandecido de carne crua e quente.
Fiz muitas vítimas desde então. Brancos ou negros, mulheres ou crianças, católicos ou judeus. Experimentei de todos e por cada um deles tenho uma preferência distinta. Como se o cada um comesse por hábito, afetasse o sabor de suas carnes.
Mas hoje não busco ser um gourmet. Quero apenas carne em forma de fast-food. Tenho fome e quando fico neste estado não ouso escolher.
Perdido em meus pensamentos, quase perco a chance de uma vítima. Ela andava apressada, coberta por um sobretudo que lhe escondia totalmente o corpo. A chuva que começara naquele instante, cobria meu corpo nu com uma gelada camada de vapores.
Ataquei-a pelas costas, buscando quebrar seu pescoço. Desequilibrada mas ainda consciente, ela gritou, um grito mudo que ficou guardado em sua garganta que eu iria estraçalhar. Em seus lábios vi claramente se formar um nome que não ouvia há muito tempo. O meu nome.
Sim, eu a reconheci e ela me reconheceu. Minha mãe humana estava ali, esperando por mim como um prato de velhas recordações.
Sem esperar mais, mordi e rasguei seu corpo, até o momento em que ouvi a última batida de seu fraco coração. Ela não deveria ter usado meu antigo nome, pois hoje me chamo Lobo e me alimento de pobres humanos desaviasados que insistem em passar em meu caminho. Mas posso me chamar Misericórdia mamãe, e assim livro inúteis como a senhora dessa vida inútil.
Comi tudo mamãe. Não sobrou nada. Só não consegui comer seus olhos, que insistem em me fitar, mudos.
EXISTÊNCIA
Bene Chávez
De teu ventre intumescido
nascem certezas, incertezas.
Mas de teu dileto amor
mesclam-se esperanças e
contínuos desenganos.
E enquanto brotamdesejos ou ensejos
tu aparecerás incessante
ante o despojar da vida.O nascimento como metafísica
sucessiva.A morte como metáfora da
aurora perdida.
Sete dias de outono
Por Paloma Lima
Quando, enfim, senti o beijo dela em minha boca, mal pude acreditar. Seis dias atrás, se me dissessem que isso iria acontecer eu não acreditaria.
Primeiro dia: Águas de Março
Fim de tarde, sábado. Eu sei que cheguei ao meu limite de trabalho, quando fecho os olhos e o cursor continua piscando sob minhas pálpebras. Fui caminhar na praia. Do alto da balaustrada, eu a vi. Cercada de amigos, numa roda de violão na areia do Porto. A saia rodada, o biquini amarelo, o cabelo castanho soprado pelo vento e a voz de maré cheia cantando: “é madeira de vento, tombo da ribanceira, é o mistério profundo…”. Desci, me juntei ao grupo e, terminada a música, escrevi na areia: você é linda. Ela sorriu o maior sorriso que já vi e me olhou, divertida, com os pequeníssimos olhos castanhos. Antes de ir embora, sem uma palavra, escreveu na areia ao meu lado o seu nome, Suzana, e um número de telefone.
Segundo dia: Brisa fresca
Tentando parecer casual, liguei no domingo, ao meio-dia. Lembra de mim? Da praia? Ela riu alto, ah, sim, claro. Já almoçou, Suzana? Não, eu não almoço aos domingos. A voz dela era mesmo de bruma. Mas caminha? Ela, sorrindo, sim, claro.
Marcamos na praia. A brisa do mar soprava a barra rendada de sua saia e salpicava gotas d’água no tecido. Na areia, eu descobri que ela ama muitas coisas: verão, praia, música, filmes noir, os filhos e o marido. Enquanto me falava dele, ela desenhava na areia uma casinha, daquelas infantis, com porta, janela e chaminé e eu, em desespero, acompanhava o movimento do dedo comprido de Suzana. Sobe, desce, pára.
Terceiro dia: Vento leste
Fui buscá-la na livraria onde ela trabalha para um café. Só tínhamos meia hora antes de acabar a aula de balé da filha. Enquanto Suzana me explicava a diferença entre tenores e barítonos, o celular tocou. Era o marido. Nos despedimos com um beijo no rosto e ela saiu voando, toda de branco. Um pássaro no vento leste.
Quarto dia: As folhas caem
Ela ligou ao meio-dia. Ah, então, você almoça às terças-feiras? Ela sorriu aquele riso que me arranca do chão. Comemos massa e tomamos vinho, comida de verdade, ela me disse. E me contou de quando tomou a primeira taça de vinho aos quinze anos de idade, e como adorou sentir que o rosto estava ficando morno, lá pela segunda taça. Me falou que o vinho preferido dela, e do marido, era um chileno semi-seco, nada caro. Perguntei por que ela, então, preferia estar tomando um vinho doce, nacional, comigo. Ela não sorriu. Lentamente pegou a bolsa, levantou-se e foi embora.
Quinto dia: Amarelo, bege, marrom
Não nos falamos. Trabalhei. As horas passaram em cores pálidas. Não era o fim o do mundo, me dizia. A última coisa de que eu precisava era de uma mulher casada em minha vida. Tomei várias taças de vinho barato e dormi no chão da sala.
Sexto dia: Dias mais longos, noites mais curtas
Nas folhas brancas dos livros, a barra da saia dela. Na música do carro, Tom Jobim. Atravessando a rua, uma garotinha de sapatilhas cor-de-rosa. Na televisão, Hitchcock. Nos meus ouvidos, o som da maré e na minha boca, um gosto insuportável de nunca mais.
Sétimo dia: Em algum lugar, é primavera.
Entrei na livraria exatamente às seis horas da tarde, quando já não havia ninguém. Ela não me viu, sentada atrás de pilhas de livros. Sem saber o que dizer, parei alguns segundos atrás do balcão. Peguei um envelope do mostruário de cartões, escrevi uma frase e passei o papel por cima dos ombros dela. Tenho certeza de que ela sorriu quando leu: você é linda. Ainda havia um vestígio de sorriso nos lábios, quando olhou para mim. Ela se levantou como sempre, calma, lentamente, e me beijou de leve nos lábios.
Seis dias atrás, se me dissessem que tudo isso iria acontecer, não acreditaria. Era só um dia como outro qualquer, até que eu a vi pela primeira vez. Se fosse verão, não teria insistido. Eu saberia que toda essa epifania teria fim quando o calor terminasse, quando o vento leste começasse a soprar. Mas aqui é outono e uma flor sorriu para mim. Como em algum outro lugar, no meu peito, fez-se a primavera.
*****
outono
fez hoje uma tarde frágil
clandestina
a luz do outono
em úmidas levezas como de asas
no muro debruçada
pensei colinas azuis
e a mim me devolvi
de mim lembrada
***
outonal
lembra o vestido de linho
daquele dia
sozinhos na varanda?
lembra da luz
última luz da tarde
sobre o tapete da sala?
lembra a manhã daquele outono frio?
o vento pelas praias
nossas festas
noites de junho
os dias de veneza?
lembra a música das conchas
o horizonte
as frases sussurradas
a ressumar delícias sobre a pele
– lembra?
lembra que a vida
inda floresce à tarde na varanda
e enche de frêmitos o ar que respiramos
: nosso desejo é como um andarilho
que nada sabe do tempo
nada esquece
Adelaide Amorin

