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Barbara Lia
BARCO DE LIA NO RIO DE CORA
No escuro escrevo como quem
adora
teu olhar que o passado inteiro
descora.
Zero duplicado em infinito
ancora
- istmo – o oceano dos medos
deflora.
Rasga em amor, imprime a tatuagem
canora.
Seres do Olimpo a ressuscitar
Pandora.
Amor – linha e linho – como Gil e
Flora.
Teu, meu corpo banhado em tesão na
aurora.
Teus, meus versos banhados no rio de
Cora.
do livro Noir (2006)
www.chaparaasborboletas.blogspot.com
4 comments Maio 30, 2009
Barbara Lia
BEATRIZ NA TORRE
Céu líquido de maio. Cinza dolência outonal abraça a alma despida de primavera. Agora apenas páginas, nelas morrem meu coração. Nelas debruço esta chama de amor e não chegará ao teu olhar esta tarde e o meu silêncio comovido. Quero que tu ultrapasses a barreira das horas, que infle de sol as velas, as barcas soltas. – e volte!
Vinte anos espero – sou Penélope. Vinte anos me resta?
A chuva baila cinza na vidraça que abre a cidade e as cicatrizes de concreto. No mundo não há quem leve, como eu, este solar crepitar na alma.
EPITÁFIO
Folha de plátano
Baila ao sol
- acha crepitante.
Desaba no solo triste.
Epitáfio da folha:
Não desapareço
– espumas nas ondas.
Regenero o solo
com ternura feroz.
Para colorir azaléias,
gardênias e girassóis.
Bárbara Lia. Poeta e escritora paranaense. Livros publicados: O sorriso de Leonardo (Kafka ed. – 2.004), Noir (ed. do autor – 2.006), O sal das rosas (Lumme editor – 2.007), A última chuva (ME – ed. alternativas – MG – 2.007). Solidão Calcinada (Secretaria da Cultura / Imprensa Oficial do Paraná – 2008).
3 comments Abril 30, 2009
Barbara Lia
ROSA CHÁ AZUL ANIL
Alma rosa chá.
Vestida de rosa chá.
Na casa rosa areia.
Leva – enquanto passeia –
um oceano de espantos
nas mãos:
Cinzas de rosas
no ar do quarto do avô
morto.
Mistério ácido na boca
- sabor do fruto vítreo –
de figueira desconhecida.
Açúcar cristal brilha
- mínimas estrelas –
nas mãos.
Céu rosáceo de Dali
desce ao chão
e incendeia
o futuro lilás:
rosa chá + azul anil
Linhas do destino
emaranhadas
- já no ventre
de nossas mães.
E apenas agora
o homem sagrado
envolto em acordes
de estrelas no cio.
- meu azul demorado!
Bárbara Lia é uma escritora brasileira.
Nasceu em Assaí, norte do Paraná, e vive em Curitiba. Publicou poemas em jornais literários como Rascunho, Garatuja, Mulheres Emergentes, Revista Etcetera, Revista Coyote, Ontem choveu no futuro. Na Internet, tem textos publicados na Zunái, Cronópios, Blocosonline, Editora Ala de Cuervo, entre outros.
Bárbara foi por duas vezes finalista do Prêmio Sesc de Literatura: em 2004 com o romance Cereja & Blues (inédito em livro) e, em 2005, com o romance Solidão Calcinada (publicado em 2008 pela Secretária de Estado da Cultura).
Em 2004, o contista Paulo Sandrini e o poeta Fernando Koproski entraram em transe diante da linguagem da autora e a editaram pela Kafka Edições Baratas. Assim ela debutou no mercado editorial com O Sorriso de Leonardo. Dois anos depois, publica outro livro de poemas,Noir. Em 2007, saíram outros dois livros de poesia, O Sal das Rosas eA Última Chuva. Poemas cercados de simbolismos e de forte lirismo, Bárbara "desenvolve linguagem e texto refinados". Uma escritora que, embora já tenha uma obra enveredada, desponta como as estrelas e cores de seus escritos em nossa literatura nacional.
6 comments Março 30, 2009