Posts filed under 'Sobre letras e barcos'
Marco Antonio
Barco da Vida…
Areia da praia, com úmido gosto de sal a salgar o meu olhar. Horizonte ainda vestindo seus raios solares, confeccionando uma paisagem outonal. Fim de tarde, vento a varrer o deserto mar… Ao longe, uma sombra brinca com minhas ilusões… Falsos contornos preenchem a silhueta cheias de cores do oceano!
Movimentos lentos, com o mar ainda repouso – apenas brincando de navegar. As ilusões brincam de inventar sensações. E da areia da praia, há de se sentir os movimentos afoitos do pequeno barco que inventou de navegar…
Saudades muitas seguiram para dentro de mim com o meu suspirar. Desatenção nos músculos. Me senti como se estivesse nos muitos versos de “Pessoa” com lágrimas do lado de dentro e ilusões muitas do lado de fora…
Lá pelas tantas, o pequeno barco manteve-se por lá, a lamber o horizonte como se esperasse pela lua, que teimava em não compor a paisagem. O desenho do meu olhar seguia esperando por ambos. A lua que não deveria tardar-se e pelo barco que não se aproximava da praia…
Quem se chegou foram as meninas de asas brancas com seus vôos maternais e seus arrulhos que parecem zombar de nós. Vôo manso, como quem se deixa conduzir pela dança do vento que aos poucos começa a provocar novos movimentos junto a água do mar…
Passei a me ocupar dos vários desenhos de andar: as gaivotas, o barco e o céu em seus contrastes de espera. Mas eis que uma gaivota desgarrou-se das demais e veio fazer-me companhia – disse-me ela com seus arrulhos cheirando a mar: “caro amigo, seu olhar perdeu-se no tempo e ficou no ontem, quando tu se aventurava a navegar. Hoje, tu tens apenas a saudade que repousa em tua pele que ainda se veste do desenho do mar!”
E foi ela num vôo manso juntar-se as suas amigas – enquanto eu me recolhia a certeza de que o fim escolhia diferentes formas de desenhos para se apresentar…
Escritos do Mago
www.acasadomago.wordpress.com
6 comments Maio 30, 2009
Barbara Lia
BARCO DE LIA NO RIO DE CORA
No escuro escrevo como quem
adora
teu olhar que o passado inteiro
descora.
Zero duplicado em infinito
ancora
- istmo – o oceano dos medos
deflora.
Rasga em amor, imprime a tatuagem
canora.
Seres do Olimpo a ressuscitar
Pandora.
Amor – linha e linho – como Gil e
Flora.
Teu, meu corpo banhado em tesão na
aurora.
Teus, meus versos banhados no rio de
Cora.
do livro Noir (2006)
www.chaparaasborboletas.blogspot.com
4 comments Maio 30, 2009
Suzana Martins
Fragmentos…
Ela trajava versos e o seu sorriso era simples e bonito como aquelas madrugadas chuvosas. Seus olhos fotografavam as mais belas nuances e nos mínimos detalhes que palavras nunca foram suficientes para descrever a paisagem. Havia poesias naqueles olhos… Neles, encontravam-se uma aquarela que pintava contos, encantos, palavras que eram gravadas na areia e perdiam-se em ondas.
A paisagem do final do outono caía no cais. Na proa do seu barco, Thereza vivia uma rotina de verso e prosa onde encontrava no infinito as suas melhores composições. As nuvens acinzentadas mesclavam-se com o azul do céu, o alaranjado do sol e o branco das outras nuvens pareciam terem sido bordadas por mãos de rendeiras.
As cores, indiscutivelmente maravilhosas indicavam a beleza de cada estação e um vento torrencialmente gelado trazia as lembranças das poesias recitadas ao som do veraneio. Ondas que cantavam a beleza da chuva e a simplicidade do pores de sol.
Um momento mágico. Único! Pequenos fragmentos naturais que vistos da proa de um barco, e de lábios que cantavam versos e tecia sorrisos.
Eram esses pequenos detalhes que a impressionavam. Uma poeira despida de versos onde recitavam poesia na areia. Um barco solitário, ancorado no cais. Um pôr-do-sol bordado em cores onde telas jamais conseguirão reproduzir com tamanha perfeição o que aqueles olhos e pensamentos fotografavam.
5 comments Maio 30, 2009
Madalena Barranco
Palavras à vela
Ele me leva pela água doce
com seu hálito fresco
em minhas pétalas soltas.
Seu rosto indefinido
sopra um beijo
em meu leme de rio…
Livro a bússola de qualquer fala
e viro vela lua de um veleiro.
Catadora de estrela polar
sou branca flor desfraldada
com pés n’água de concha
e seio no vento frio.
Letra incerta
de seu barco, ao sabor
da palavra que navega
a nossa história
de a-mar à vela,
deleto a âncora final.
Madalena Barranco
http://flordemorango.blogspot.com
7 comments Maio 30, 2009
Regina Ramão
"Canoa! Canoa!"
- Canoooa! – Canooooa! – os gritos chegavam abafados pela distância que separava a casa de Clarice da margem do rio e pela providência costumeira de cerrar bem as janelas para evitar a entrada de insetos noturnos.
Perdidos nas trevas da noite, aos operários que trabalhavam no último turno da fábrica de bebidas do vilarejo, não restava outra alternativa senão clamar aos canoeiros para que os viessem buscar e leva-los de volta para casa.
Clarice tremia ao ouvir os chamados por "canooooa", "canooooa". Sua fértil imaginação juvenil fazia com que os gritos dessem forma à cavalheiros angustiados pela distância de suas doces amadas, que habitavam a outra margem, e que os aguardavam, qual mulheres de Atenas esperando pelo regresso de seus bravos guerreiros, cansados das jornadas de lutas.
Em outras noites, os gritos abafados formavam fantasmas apavorantes que dependiam da canoa para buscarem seus corpos putrefatos enterrados no cemitério da outra margem. Pretendiam, vestidos com a armadura carcomida, retornar à vida, recuperar o beijo não dado, a palavra não dita, a tomada do caminho correto perdido na encruzilhada do tempo.
Em outras noites ainda, "canoooa", "canoooa", eram expressões hilariantes proferidas por palhaços bêbados que tropeçavam nos cascalhos da margem do rio. Iludidos pelas luzes das casas dos ribeirinhos da outra margem, que cintilavam por entre as brumas, enxergavam a miragem do circo do qual haviam saído com seu calhambeque envenenado, que não superava os vinte quilômetros por hora enquanto produzia deliciosos sons de pipoqueira gigante.
As noites de Clarice eram líricas, assustadoras, hilárias, apesar de que os gritos eram sempre os mesmos.
Clarice só temia as noites de domingo. Não havia expediente na fábrica, nem operários retornando para casa, nem gritos de "canoooooa", "canooooa". Desapareciam os cavalheiros apaixonados, os zumbis, os palhaços. Clarice, insone, suspirava envolta nos lençóis.
Bastaria lápis, caderno e boa vontade, pois inspiração não lhe faltava. No entanto, o silêncio da noite fazia ecoar as batidas do seu coração no escuro do quarto e revelavam um profundo vazio nos sonhos e na vida da jovem moradora do lado de cá que ainda não ousara atravessar o rio de canoa, nem dar vida perene aos seus personagens imaginários traçando letras nas noites dominicais.
2 comments Maio 30, 2009
Sabrina Davanzo
Ditado
Barquinho de papel desliza na água
leva embora o ditado escrito com tanto esmero.
Cada letra bordadinha
em seu devido lugar,
Encantava a professora
era bonito de se olhar.
Podia ser um barquinho de álgebra, ou ciência.
Mas seria muita responsabilidade para a embarcação.
Imagina informar os passageiros
sobre raiz quadrada de setenta e oito
ou, pior, contar sobre as células do corpo.
Melhor um barquinho pautado, bem aportuguesado
que sabe de cor e salteado
qualquer palavra que lhe perguntar.
Essa viagem, tem uma tripulação especial.
Junto com o barquinho
vai o trema que caiu em desuso e depressão,
e o acento de ideia, que não tem mais utilização.
Só ficou de fora o hífen,
que com tanta confusão,
esse o barquinho não leva não.
5 comments Maio 30, 2009
Pedro Mota
Primeiros Despojos
Não tolhas de tuas mãos a qualidade do afago.
É de sua natureza, postas nos ombros alheios
Cobrir em véu as máculas do tempo.
Não tolhas de tuas mãos a qualidade do afago.
É de sua natureza, postas ao rosto tímido,
a espera do beijo – ainda que sonhado.
Não tolhas de teu corpo o encontro com outro corpo.
É de sua natureza o perder-se em susto.
Escrevendo a história da existência a loucura.
Não te prives de perder-te, quando não tiver mais planos.
É da natureza humana, no contato, o encontro;
De outras casas, rios e mares.
Ainda que não haja mais casas, rios ou mares a tua espera.
Mesmo que sequer tenha existido.
E te depares em correntes de cetim em meio a jocosas negações:
“Não sois Ulisses! E tua Ítaca foi apenas uma história de outro inventor”.
5 comments Maio 30, 2009