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Flávia Muniz
Os barcos!As palavras!
Calor sem vento. Alguém diria: – uma brisa! Canto. Poemo pra ventilar. É um convite: navegue. Essas praias de cá tem peixe. Barqueio perto, tenho sangue de ilha… Há uma homônima também escritora, mas eu não sou ela. Eu sou eu.
NAU ARGOS
No pé de página está escrito: minha gravidez amanhece junto ao sol. Não sou poema. Sou esse desdizer de letras ávidas – alguma retina me permanece. O luar não pisca. Imagino o tempo: corre léguas antes. Futuro é tudo que não sei…
No corpo do livro é o que não está escrito. Os olhos margeiam – sílabas, fonemas, sussurros – pradarias extensas de nenhum poema. Meus nadas esclarecem silêncio: por isso escrevo… Depois vem a chuva. Ah! Alívio de saciar sede. Um oceano em cada gota. Ventania: vendaval de ser eu mesma… Minha natureza essa, sopro boquiaberto. Barqueio leme pra onde vou.
Perguntas não pensadas, respostas nunca vistas. Nem terra firme ou cais. Ar rarefeito imaginado. Existências quando. Pormenores extras. Coragem: desnudar marés.
4 comments Maio 30, 2009
Marco Antonio
Era uma vez um outono
Era uma vez uma estação diferenciada que queria ganhar um novo amigo, porque estava cansada de estar sempre sozinho. Seus irmãos sempre alegres e risonhos estavam ocupados demais, não tinham tempo para com ele estar. A Primavera estava a semear suas sementes para que em breve estivessem florescendo e perfumando a estação. O Verão estava aquecendo outras terras, distantes, seus raios mal chegavam onde o outono estava… O inverno estava ausente: hibernava e nem pensava em acordar.
Pobre outono, não tinha nenhuma companhia – andava cabisbaixo… Chateado… Tão tristonho ele estava, era de dar pena. Sem que ele percebesse o vento começou a sopra mais forte, arrastando algumas nuvenzinhas simpáticas para perto dele. Elas que gostavam de pratear a paisagem ficaram incomodadas com a tristeza e a solidão e tentaram alegrá-lo das mais diversas formas.
Primeiro convidaram-no a um passeio pela paisagem, aproveitando-se do calor ameno, já que o sol estava distante e como o frio estava hibernando, o clima estava ameno e agradável e lá foram eles percorrer os campos e visitar os horizontes. Depois de muito “cavalgar” pelos ares, uma das nuvenzinhas resolveu pintar. Sim, pintar a paisagem, pois achava que a natureza precisava de novas cores… O outono que já não estava mais triste – gostou da idéia e chegaram à conclusão de que as folhas verdes deveriam ganhar novos tons de amarelo, laranja, vermelho, marrom. Até o vento resolveu ajudar, soprando as folhas para que a tinta secasse mais rápido…
O vento gostou tanto da brincadeira que acabou gerando uma rede moinho que espalhou folhas pintadas pelo Outono e pelas nuvens por diferentes caminhos. Sentado no banco de uma praça, um artista com sua tela, de tão encantado que estava que resolveu homenagear seu amigo outono. O poeta sentado na sombra de uma árvore resolveu interpretar aquela paisagem com suas palavras e as crianças se viram ali, a colher aquelas “novas” folhas…
Foi assim – numa tarde comum: sem graça, triste – que pintada com novas cores tornou-se risonha, alegre, festiva e o outono descobriu que havia feito novos amigos…
Blog. A casa do mago
4 comments Abril 30, 2009
Suzana Martins
Páginas de Outono
Havia crianças que brincavam no parque correndo de um lado para outro enfeitando o outono com a inocência dos seus sorrisos infantis. Rostos coloridos que faziam parte daquela paisagem que seguia sendo pincelada pelas folhas de um outono antigo…
Ao longe, sentado sobre um velho banco, em meio às folhas caídas, um espectador de olhos tristes, ausente de toda aquelas pequenas alegrias… Uma imagem pálida, cabisbaixa, com suas rugas de antigamente – assistia aquelas crianças que seguiam construindo suas diferentes formas de futuro… Era impossível para ele não visitar seu passado recente, quando ali naquela paisagem, conduzia passos pequeninos de um lado para o outro, com tamanha felicidade. Ele visitava o passado, enquanto o ar parecia escapar de suas entranhas junto às lágrimas que cristalizavam sua face de homem exausto…
Ele fechava os olhos e revivia cada antigo momento. O sorriso tentava florescer feito flor em plena primavera naquela velha face, mas perdeu-se em meio as dores que lhe corroíam a alma…
Suas saudades várias se misturavam e se confundiam com toda aquela euforia outonal. Ele seguia visitando aquela paisagem como quem se agarra a uma falsa esperança – cada rosto, cada olhar, cada gesto, cada sorriso tinha um pouco daquele menino que seguia apenas em sua lembrança… O seu menino que gostava de juntas folhas com suas mãos pequeninas e lançá-las ao ar – era sua forma singular de ilusão, tão sua, tão colorida…
Repentinamente, um vôo de pombos devolveu a paisagem ao seu lugar. O tempo voltou a passar, na face daquele velho homem as ilusões há muito estavam perdidas. Sua alma seguia silenciosa, entristecia, buscando um motivo para não sucumbir aquela dor…
Foi então que um menino saído do vento aproximou-se em sua pressa infantil de quem precisa entender todas as coisas do mundo. Ele olhava atentamente para aquela figura de homem com muitos mais traços e retas que ele e quis saber porque daquelas gotinhas que deveriam vir apenas do céu, estarem vindo daqueles olhos tristonhos. Munido de um lindo sorriso espontâneo, ele segurou as mãos dele e o chamou para brincar. Era impossível recusar e lá foi o velho homem com seus passos lentos sendo conduzido pelas mãos de um pequenino, que bem podia ser ele, seu filho, mas não, era o filho de alguém que de algum canto daquele lugar assistia aquele pequenino ensinar aquela figura desajeitada de homem a apreciar as cores do outono…
Ali, em meio a tantas folhas, o menino ensaiava os gestos, meio como quem ensina, meio como quem pergunta se está fazendo certo? Mãos pequeninas a colher as folhas pelo chão e lançá-las ao ar como quem faz chover folhas e sorri feliz ao vê-las voando em sua pressa singular até o chão e lá se foi o velho homem a repetir aquele gesto tantas vezes desenhados por seu menino…
Um contraste envolto na beleza ensolarada de uma tarde de outono que viu renascer um menino na face cansada de um velho homem…
Suzana Martins
www.minhasmares.blogspot.com
7 comments Abril 30, 2009
Paulo R. Diesel
O outono que está dentro de nós
É noite ainda e a ansiedade dela aumenta a medida que o tempo insiste em caminhar lerdamente ao seu destino.
Da janela aberta e iluminada pela luz da lua cheia ela observa as poucas estrelas que cintilam
O coração aperta. Fecha os olhos e imagina a situação que idealizara. Em poucos segundos a emoção a faz chorar e lágrimas caem dos seus olhos como folhas que despencam de árvores frondosas quando troca a estação.
Pára. Olha em volta e percebe que a solidão da hora transformou a sua insonia em expectativas que são embaladas pela brisa imaginária de folhas que balançam naquele quadro de Renoir.
Senta e da cadeira observa o abajur que no canto da sala aguarda ordens para acabar com a escuridão.
O tempo não passa como ela quer, mas para que ter pressa se o que ela deseja se esconde nas estranhas trincheiras abarrotadas de pensamentos e de dúvidas e de incertezas.
O silêncio é interrompido pelo badalar do sino da igreja distante, anunciando o início daquele dia, que vem acompanhado de nuvens carregadas. Parece que vai chover.
Vai à porta, desce a escada, tropeça, desequilibra-se e sente a grama molhada pelo orvalho da madrugada. Caminha observando as nuvens, os plátanos, os esquilos que saltam em disparada a lugar nenhum e sente algo se transformando.
Não vai chover.
O sol aparece em meio as nuvens e seus raios indicam o caminho.
A ansiedade acaba. Uma típica manhã de outono se desenha, sem avisos, sem alardes e ela corre, sem motivos, só para ver a mudança com mais rapidez.
As folhas secas, o vento morno, a tarde gris daquele primeiro dia lhe davam esperanças. Abriam-lhe os olhos. Mostravam-lhe o quanto aquilo tudo era necessário.
E era.
6 comments Abril 30, 2009
Erica Salatini
Todas as mulheres se chamam Ana
Vi Ana saindo do Café Girondino esta tarde. Eram mais ou menos cinco horas de uma tarde já outonal… Caminhava a passos lentos. Segurava a mão de alguém. Tantas vezes em sonhos e noites de vigília vi a imagem de Ana saindo daquele Café que quando enfim a revejo, mal posso disfarçar meu temor em acreditar nos meus próprios olhos. Fiz um pequeno esforço para alcançar Ana, mas aquelas mãos enlaçadas me detiveram. O que eu poderia dizer: como vão as coisas. Ela me apresentaria o dono suave daquelas mãos. Ficaria sem jeito, talvez contasse que há tempos não tomava aquele cappuccino, que sentira falta daquele sabor.
Ana conhece de cor aquelas ruas que levam ao Largo. Todos os bares, os cafés, as óticas, todos os panfleteiros das óticas, que gritam óticaóticaótica. Ana, aliás, estava sem óculos. Talvez tivesse comprado suas novas lentes ali. Eram óticas boas, boa qualidade dos produtos que nem eram tão caros. Há tempos atrás Ana comprava seus óculos ali. Desde que usava lentes, não sei onde as comprava.
A Rua São Bento converge para o mosteiro. O mosteiro era o refúgio preferido de Ana. Quando estava triste, ficava ali observando a construção por horas e horas, às vezes entrava na igreja, fazia sempre o sinal da cruz e me repreendia quando eu lá entrava e não me importava com esta formalidade. Até fui bem religioso um dia, mas quando estava com Ana não acreditava em nada não. Talvez em Ana eu acreditasse. Acontece que Ana um dia foi embora: assim como um dia chegou, assim um dia foi embora. Deixou de percorrer aquelas ruas tão suas conhecidas. Deixou de entrar silenciosa em meu apartamento. Deixou de pisar na ponta dos pés o assoalho de madeira pra me surpreender no final do corredor. Não deixou as chaves não, por isso esperei por muito tempo a sua volta.
O cheiro de café da Rua São Bento vem do café Girondino, eu acho. Uma vez Ana me disse que sempre que passava no centro sentia um cheiro muito característico. Não era café não. Era uma mistura de gordura de pastel e cerveja choca. Disse que quando voltasse pra casa e sentisse esse cheiro em um dia qualquer, se lembraria das ruas pelas quais passava quando vinha me visitar. Não sei se hoje, com a mão enlaçada à de outra pessoa se lembrou do cheiro, se teria sentido este cheiro que não mudava nunca. Será que Ana conta ao dono desta mão que a enlaça agora suas impressões?, será que ainda se impressiona com as mesmas coisas?, será que observa a grade de cds estendida no chão, ou continua a tropeçar nela?
Não consigo me aproximar de Ana, resolvo então seguir Ana. Mantenho alguns metros de distância, se ela se virasse para trás agora e olhasse com um pouco de atenção, tranquilamente me veria. Acontece que não olhou não. Vi quando seguiu pela Rua São Bento e dobrou a esquina. Na Praça se deteve alguns minutos, entrou na livraria. Ana não gostava muito daquela livraria porque os preços eram bem altos, me lembro. Além disso, não se podia ler as primeiras páginas dos livros, como gostava de fazer, sem ser incomodada por alguém… sempre preferia as livrarias maiores, daquelas onde nem se vê um vendedor. Saiu em poucos minutos com um livro novo na mão.
Estranhei um pouco porque Ana sempre entrava em livrarias, ficava horas lá dentro, lia os primeiros dois ou três capítulos do romance argentino que queria, às vezes um conto russo ou alemão, traduzidos, é claro, Ana não conhecia estes idiomas, mas gostava particularmente de Tchecov e de alguns alemães. Depois não comprava nada, ia embora dizendo que podia esperar o livro chegar à biblioteca da faculdade, ou então esperar alguns meses pra comprar num sebo do centro, na Álvares Machado já alguns sebos eram bem abastecidos de novidades, quem sabe o encontraria. Não encontrava não. Só depois de muito tempo Ana chegava dizendo sabe aquele romance argentino que eu queria tanto ler? um amigo o emprestara. Sempre algum amigo emprestava. Ana sabia. Tinha muitos amigos leitores. Ana nunca devolvia os romances que emprestava. Todos os amigos de Ana diziam que Ana era ótima leitora, mas que nunca devolvia os livros emprestados. Os romances tão pouco ficavam com ela, Ana não tinha biblioteca em casa, Ana, aliás, não tinha casa. Por isso dormia muitas noites em minha casa. Por isso tinha muitos amigos. Os livros emprestados de amigos eram sempre dados como recompensa pelas camas emprestadas por outros amigos. Ana tinha muitas camas emprestadas. Mas eu nunca ganhara nenhum livro emprestado. Ana não era minha amiga.
Ana atravessou a Líbero esperando pelo verde. O dono da mão quis atravessar no vermelho, não vinha nenhum carro mesmo, mas ela puxou a mão e juntos esperaram pelo verde. Ana nunca passava num sinal vermelho. Desde pequena quando a mãe lhe ensinara a obedecer ao semáforo. Uma chuva fininha começou a cair e Ana ajeitou sua boina amarela. Desta vez usava um cachecol vermelho, as saias escuras e as meias de lã ligeiramente avermelhadas. Fazia já um friozinho esta tarde. A mão que a acompanhava enlaçou seu pescoço e abraçados os dois corpos seguiram pelo Viaduto do Chá, pararam em frente ao Teatro, deram uma olhada na programação, este final de semana teria uma apresentação de dança flamenga, há quanto tempo não se via este tipo de espetáculo por aqui.
Seguiram depois pela Xavier de Toledo e então notei que o tráfico era já intenso e que começava a anoitecer. Lembro quando Ana fazia o caminho inverso em direção à minha casa. Sempre descia neste ponto em frente ao metrô, depois percorria apressada o viaduto até o largo. Nunca dava atenção às ciganas que queriam ler suas mãos. As mãos de Ana não eram pra ser lidas, tinham muitas linhas, difícil prever. A linha da vida era curta e tinha algumas minúsculas ramificações. Ana tinha quase um M na palma da mão.
Na Martins Fontes pegaram um ônibus em direção aos jardins. Vi quando apertaram os passos para não perder a condução que a este horário vinha já muito lotada. Na Augusta provavelmente perderiam mais de meia hora. Pensei em tomar um táxi e seguir o ônibus pra ver até onde iriam, mas os poucos trocados em meu bolso me lembraram que não eu fazia parte de um conto policial e resolvi voltar para casa. Além disso, a garoa fina apertava a cada minuto e eu já podia sentir úmida minha malha de lã.
Quando cheguei em casa, senti um forte cheiro de jasmins secos. Ana já me esperava. Disse com voz rouca que acabara de preparar um chá quente. Chá de jasmins. Frio este começinho de noite. Ana me estendeu uma toalha seca e pediu com um sorriso doce brincando nos olhos que eu tomasse um banho quente porque estava todo encharcado. Dei-lhe um beijo leve e notei que seus cabelos estavam úmidos, talvez tivesse já tomado um banho quente. Ana escapou de meus lábios e correu para a sala para aumentar o volume do rádio. Tocava neste momento uma de suas canções preferidas. Tirei os sapatos e me dirigi em silêncio para o banheiro, no final do corredor. Lá dentro, senti novamente o perfume de jasmins e olhei para o espelho já embaçado pelo vapor. A água morna da ducha levou embora o frio úmido da chuva. Lá de fora, se podia ouvir Ana que cantarolava.
6 comments Abril 30, 2009
Adriana Gaspar
Manifesto Outono
Sentada e melancólica. É como o vejo. As árvores perderam o monótono uniforme. O verde tornou-se verde, amarelo, laranja, vermelho, castanho, roxo. O todo tornou-se na parte. E o vento, macio e rebelde, abraça as folhas e deixa que a gravidade as pouse no chão. E o caminho enche-se dessa camada, desse tapete colorido, num quadro mais belo que qualquer cidade. Depois das chuvas lavandeiras, vem o manto branco e fresco que anuncia um bom Inverno.
Assim se vai Novembro.
http://escritosdispersos.blogspot.com/
http://cronicasdolodacal.blogspot.com/
3 comments Abril 30, 2009
André Auke
A menina de cera é bonita, ela é uma boneca de cera que se pinta para ficar mais bonita.
Ela não sabe que já é bonita.
Ela usa sua maquiagem para no espelho de seu banheiro não se ver.
Ela se vê no espelho da sala, sentada no sofá ou pelo menos acha.
Quem será a menina por trás da máscara de boneca pintada?
Ela não sabe que já é bonita?
Ela esqueceu… Ela se perdeu, dentro de uma revista de moda…
Corre para o quintal menina e volta a brincar, nina a boneca no seu colo, só para você lembrar que não precisa ser ela, para se encontrar.
O que será que tem por de trás da roupa dessa menina? É coração ou pilha?
Acorda menina do sonho que esconde o pesadelo, da aparência que disfarça a carência.
No final as lágrimas são adstringente, mas por dentro da face o pó corroí.
O tempo é pavil, mas também é soro.
Acorda minha bela menina.
8 comments Março 30, 2009
Adelaide Amorin
Ana Angélica
Fala de tanta coisa ao mesmo tempo em que no fim não sobra nada.
Ana Angélica, um nome assim tipo arrebatador. Não que ela faça o gênero – um pouco tosquinha, simpática e boa pessoa. Impossível é seguir o fio de seus pensamentos ou manter uma conversa coerente que dure mais de três minutos. O pensamento de Ana Angélica é como um tobogã transparente por onde deslizam incontáveis pedaços de assunto, nomes que não se sabe de onde vêm, lembranças e sensações mal definidas, misturadas como meadas de várias cores. Ana Angélica não conta uma história, conta várias ao mesmo tempo, e no fim é preciso fazer múltipla escolha entre os trechos de enredo e os finais. Por qualquer motivo ela ri, ri muito, o que torna suas falas uma colagem de palavras incompletas, mas coloridas.
Não, não é doida nem passa perto disso. É alegre e adora se divertir. Ninguém a encontra em casa nas noites de sexta ou a qualquer hora nos sábados, sendo que aos domingos vai à missa – diz que se faltar à missa alguma coisa muito ruim sempre acontece durante a semana – e dali parte para a praia se não chover. Depois almoça um churrasco em casa de amigos ou amigos de amigos, toma todas que aparecerem e vai dormir cedo porque segunda é dia de voltar ao posto de recepcionista de uma clínica de estética na Barra.
Tem um círculo de amizades surpreendentemente grande, variado e flutuante. Tem Orkut, adora sexo na internet e faz questão de espalhar suas fotos em todos os sites de relacionamento. Já fez dois abortos, porque diz que só quer filhos depois dos trinta e cinco e ainda tem vinte e oito. Fica, namora, sai sempre com alguém, faz qualquer coisa para não ficar sozinha, mas nunca demora mais de quinze dias com o mesmo cara.
Acredito que isso acontece porque uma vez passou uns meses com um sujeito que a trocou por outra e fez de seu coração risonho uma gruta escura. Caiu em depressão, parou de comer, quase morreu sozinha em seu canto. Os amigos a salvaram do desespero, mas depois do luto, voltou à rotina de variedades que a mantém sempre com o olhar brilhando e os dentes bonitos de fora.
Ana Angélica não quer servir de exemplo pra ninguém. Não se responsabiliza, e como tem o coração fácil de derreter, chora com facilidade, mas logo se distrai e esquece. Vive cada momento, não pensa no futuro nem pára em lugar nenhum do passado. Alguém já disse que ela é como espuma, sempre efervescente e renovada. Ana Angélica se especializou em esquecer.
6 comments Março 30, 2009
Regina Ramão
O Doce sonho de Irene
Irene estava quietinha, sentada em sua poltrona preferida, na larga varanda, rodeada de plantas em vasos de cerâmica de vários formatos e tamanhos. Enrolada no velho xale azul, desbotado pelo tempo, em suas mãos o livro de páginas amarelecidas, uma edição antiga de “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, o romance que embalara a sua juventude, a sua idade adulta e, agora, a sua velhice.
Quando tinha apenas treze anos, um amigo de seu pai o havia emprestado, pois sentia necessidade de ajudar a despertar o prazer pela leitura nos jovens que encontrava pelo seu caminho, ainda mais aqueles que não dispunham de livros em casa. Era um livro de bolso, mas enorme aos olhos da pequena Irene. Suas noites de adolescente, naquela cidade fria do interior, onde o sono custava a chegar, tinha nas páginas do romance um momento de sossego e alento.
O romance forte e poderoso, que ultrapassava a barreira da morte, entre os personagens Heathcliff e Cathy, faziam Irene estremecer durante as horas em que devorava as páginas do livro, num misto de medo, prazer e sonho. Na tenra idade e lendo uma obra com tamanho vigor, Irene sentia-se transportar para as imagens mentais que fazia, era a própria Cathy, perdidamente apaixonada pelo bruto, selvagem, ardente e sensualíssimo Heathcliff. E foi assim, com essas imagens formadas em sua mente que adentrou a adolescência, buscando encontrar alguém que fosse o ’seu’ Heathcliff.
Irene não sabia que a realidade dificilmente imita a ficção, encontrou muitos rapazes, mas nem de perto correspondiam ao perfil que havia traçado. Com o passar do tempo, e após várias frustrações, acomodou-se, aceitando o fato de que a busca era inglória.
Conheceu já adulta, um homem muito bom, atencioso, gentil, educado, amoroso. Casaram-se, tiveram filhos, crianças lindas e saudáveis, que foram criadas com afeto e dedicação de ambos. Nesta época Irene releu o romance de Emily, já não tinha mais as ilusões de uma adolescente com os hormônios em ebulição e com o cérebro em espera. Agora ela era uma senhora, esposa e mãe de família, sabedoura das suas responsabilidades, e a releitura deste romance a fez sentir que o tempo havia passado e o quanto havia se perdido em devaneios, na esperança de que algo semelhante pudesse ter se realizado em sua vida.
Os filhos de Irene cresceram, um dos rapazes fez intercâmbio de estudos, indo para os Estados Unidos, arrumou serviço fixo e casou-se com uma americana, nunca mais voltou. O outro foi servir ao Exército, tornou-se efetivo, e hoje trabalha no norte do país.
A sua filha, era uma brilhante aluna, formou-se em administração, estava exercendo um excelente cargo em uma multinacional, conheceu um executivo, resolveram casar, ela engravidou, teve uma criança linda e saudável, mas sofreu de depressão pós-parto, não retornando ao seu estado normal, foi internada em uma clínica psiquiátrica, e o seu bebê levado para ser criado pela avó paterna, que morava na Espanha. Durante muitos anos Irene acompanhou o tormento de sua filha, até que um dia, chamada à clínica, recebeu a notícia que, devido a uma dose errada de medicamento, ela havia sofrido convulsões que culminaram em uma parada cardíaca e que, apesar dos esforços para salvá-la, não foi possível.
Depois desta perda, Irene passou a viver como um autômato, e assim se passaram muitos anos.
Quando perdeu o seu marido, mesmo com o filho militar querendo que ela fosse morar com a sua família, ela preferiu morar numa casa geriátrica, pois entendia que não tinha o direito de invadir a privacidade da família do filho, ainda mais que durante anos não houvera convivência nem intimidade. Foi atendida em seu desejo.
Hoje, Irene observa o jardim que rodeia a casa onde reside com outros idosos, seus olhos cansados buscam na paisagem uma brisa do passado, descansa o livro sobre o colo, sente o coração apertado, cruza as mãos enrugadas sobre o livro, inspira profundamente o perfume das flores, cerra os olhos e se deixa adormecer, e no seu sonho, tal como na adolescência, incorpora a sua Cathy e encontra-se com o seu Heathcliff, ambos correndo pelos campos, repousando à beira do riacho de águas transparentes, trocando olhares, carícias, beijos apaixonados e amando-se na relva com ardor juvenil.
3 comments Março 30, 2009
Paloma Mariano
Seule étoile
Essa noite eu falarei de amor. Tenho dentro de mim um espaço entre nós e diante disso dois caminhos: o sacrífcio ou a dádiva. Eu posso te dar um pedaço do que sou, mas não sou mulher de frações. Esse furto para mim são dois – subtrairá a minha delicadeza cotidiana dos seus amanheceres e, no amor, poucos pecados podem ser maiores que pétalas de rosas roubadas.
Eu choro ao olhá-las secas, caídas dessa roseira breve, quando deveriam estar entre as páginas dos seu diários, envelhecendo em perfume e seiva junto às suas memórias, aos nomes santos, às profanas ascensões, céus desvirginados, terras férteis fecundadas, líquida que é sua semente, se mente, sêmem meu em ti.
Por outro lado, eu posso abreviar outro capítulo e brotar em suas mãos. Eu e minha roleta russa. E sou capaz de me atirar, você sabe. E eu acho que apesar de sua sobrevida em cores de vitral, você deseja que as portas sejam abertas e que os templos construídos sobre fundamentos racionais transformem-se em dias de paixão, em diálogos de lua, explosões, tempero ardente nesse mundo ocre, que é belo em sua quase cor, mas suspira antes de gozar.
Eu só quero lamber suas lágrimas. E dizer: para quê, se eu te amo? Não sou mulher de frações e, no entanto, estou dividida. Não entre dois lugares, mas entre duas formas de estar em você. De mostrar esse cordeiro imolado que sou nesta noite e dizer: é seu.
Eu tenho medo do traço que me decompõe. É uma sucessão de dias planejados sobre isso ou nada mais.
Se você disser: ‘venha”, eu taparei os ouvidos porque a música sobre a qual rodopio já me diz há tanto tempo: “vá” e não olhe para trás. Eu não quero dizer isso, mas digo, porque esta noite eu falarei de amor. Digo: amor, eu não quero mais voltar. Digo, assim: amor, sou sua. Eu quero ficar, impulso aquoso, arquipélago, pólen do seu peito, pássaro, estrela única, ainda em sangue.
Mas feita para ser dádiva.
Add comment Janeiro 30, 2009
Fernando Rozano
Breve
Desde o meu começo sempre soube do meu fim. Os escuros entre um e outro, entre o nascer e o do pôr-do-sol, enigmáticos, sempre foram minhas margens. Rio ou mar, nascentes de água doce ou de sal, eu sempre recebi as sombras grisalhas das nuvens, quando a memória se transforma em noite e nela a névoa ao amanhecer sobrevive, como refúgio e resistente passado. O futuro há muito se desprendeu do horizonte e hoje é apenas uma tênue linha divisória entre os tempos.
Desde o meu começo sempre soube do meu fim, o que nunca soube e jamais saberei é da palavra maturada no lume da Terra em permanente rotação no fundo de mim mesmo.
Add comment Janeiro 30, 2009
Adelaide Amorin
Palavras ao mar
Estranha relação aquela com o mar. Se ao menos fosse coisa do astral, se tivesse nascido em Peixes, Aquário, Câncer… Mas que nada, era de fogo, fogo duplo: Leão com ascendente em Sagitário – embora um Leão-quase-Virgem, que lhe rendera uns vestígios de obsessividade e a fizera fã de histórias de detetive. Não era um motivo de origem – além das origens aquáticas de todos nós, é claro –, mas um traço debussiano aprendido muito cedo nos discos que o pai ouvia a toda hora. E mais: ainda que nascida no Rio, sempre havia morado na Tijuca, longe do mar. Não conhecia senão de ouvir falar a aporrinhação dos metais oxidados, da umidade, do cheiro de maresia.
Aprendeu o mar em contatos encantados nas praias da infância, e as recomendações dos adultos a maravilhavam: então muito perigoso, e perigoso passou a ser sinônimo de bonito, inefável, de não ter muita certeza de nada e olhar com uma desconfiança arrebatadora todas as coisas desconhecidas. Com o mar aprendeu o mistério das palavras – vá alguém confiar nas palavras, mutantes como o mar. Aprendeu com o mar a ver as coisas pela luz que transforma tudo, das cores ao sentido. Entrar no mar a deixou “séria de ventura e aventura”, como diz Clarice, e lhe ensinou que se pode experimentar uma ausência de limites sem se diluir no nada, ficando criança para sempre.
Nunca mais deixaria de ser criança, mesmo quando a maturidade lhe ensinasse a dura lição das impossibilidades. Aprendeu a vida embalada pela marola da calmaria, espancada pelo caixote inesperado, lutando contra a corrente e furando a onda verde para sair meio torta do outro lado, mais forte e mais humilde. Mergulhou na vida para confirmar o que já previa: para a vida como para o mar somos pouco mais que uma bolinha de pinball.
A diferença é que a bolinha vai e vem sem dizer nada e, tanto quanto se sabe, sem se alterar em sua natureza de bolinha. Mas com gente é diferente, já dizia Geraldo Vandré. Gente às vezes não consegue ficar à tona e pode mesmo escolher não ficar.
Deve ter acreditado que entrando no mar daquele jeito voltaria ao perigo inefável, ao desconhecido arrebatador. Deve ter ido em busca, quando não havia mais nada para buscar em terra firme. Tinha mesmo fortes motivos para preferir o mar.
Add comment Janeiro 30, 2009
Cássia Guerra
Um quarto à meia luz
tinha algo estranho pairando no ar naquela tarde, cara. um dia cinzento como qualquer outro dia nublado e as duas encolhidas jogadas pelos cantos daquele quarto. palavras vazias voavam de uma à outra causando-lhes espasmos. escondiam seus corpos maculados debaixo de fantasias transparentes. sabiam de tudo e não queriam saber de nada. a atmosfera cinzenta alternava solidez e ausência. solidez e ausência. elas estavam enlouquecendo. o silêncio instalou-se no quarto e por lá permaneceu uns quinze minutos, sentiram décadas se arrastando a passar, depravando suas mentes castas. queria urrar. quebrar aquele muro de vidro que as separava. a outra foi mais rápida: desista, baby, a porra desse amor lésbico vai devorar nossas entranhas. a partir de então não via mais uma carne branca desconhecida desmaiada numa aresta qualquer daquelas paredes. ela era a sua imagem e passou a amá-la com algo mais que amor próprio.
Add comment Janeiro 30, 2009
…
Aquele primeiro encontro era tudo que ela precisava. Há meses não sentia aquela segurança e aquele frio na barriga. Por vezes, pensou em desistir. Mas foi. Ela estava linda! Nervosismo. Frio. Não tinha uma estrela no céu e a lua teimava em não aparecer. Imaginou-se pegando na mão dela, dizendo o quanto ela era linda, e, por fim, o beijo tão esperado. Tudo correu tranquilamente, a conversa foi ótima, a comida estava boa, mas não conseguiam se despedir. Palavras iam, palavras vinham. Risos. Foram para outros lugares, se despediam aos poucos. Olhavam-se aos poucos. A noite ia passando, as horas voavam, a luz ia aparecendo ao leste. Na madrugada fria conversaram sobre a vida, sonhos, livros, filmes, músicas, sobre tudo que podiam inventar para não se separarem. Aquela foi a noite delas. Do encontro quase perfeito. Da despedida dolorosa. Quando o sol apareceu, a contragosto, elas se despediram. Uma foi para casa. Outra foi pegar o ônibus para voltar para casa. Não houve beijo. Apenas silêncio e um olhar intenso de desejo.
Carolina Mantovani
Add comment Janeiro 30, 2009