Regina Ramão
Maio 30, 2009
"Canoa! Canoa!"
- Canoooa! – Canooooa! – os gritos chegavam abafados pela distância que separava a casa de Clarice da margem do rio e pela providência costumeira de cerrar bem as janelas para evitar a entrada de insetos noturnos.
Perdidos nas trevas da noite, aos operários que trabalhavam no último turno da fábrica de bebidas do vilarejo, não restava outra alternativa senão clamar aos canoeiros para que os viessem buscar e leva-los de volta para casa.
Clarice tremia ao ouvir os chamados por "canooooa", "canooooa". Sua fértil imaginação juvenil fazia com que os gritos dessem forma à cavalheiros angustiados pela distância de suas doces amadas, que habitavam a outra margem, e que os aguardavam, qual mulheres de Atenas esperando pelo regresso de seus bravos guerreiros, cansados das jornadas de lutas.
Em outras noites, os gritos abafados formavam fantasmas apavorantes que dependiam da canoa para buscarem seus corpos putrefatos enterrados no cemitério da outra margem. Pretendiam, vestidos com a armadura carcomida, retornar à vida, recuperar o beijo não dado, a palavra não dita, a tomada do caminho correto perdido na encruzilhada do tempo.
Em outras noites ainda, "canoooa", "canoooa", eram expressões hilariantes proferidas por palhaços bêbados que tropeçavam nos cascalhos da margem do rio. Iludidos pelas luzes das casas dos ribeirinhos da outra margem, que cintilavam por entre as brumas, enxergavam a miragem do circo do qual haviam saído com seu calhambeque envenenado, que não superava os vinte quilômetros por hora enquanto produzia deliciosos sons de pipoqueira gigante.
As noites de Clarice eram líricas, assustadoras, hilárias, apesar de que os gritos eram sempre os mesmos.
Clarice só temia as noites de domingo. Não havia expediente na fábrica, nem operários retornando para casa, nem gritos de "canoooooa", "canooooa". Desapareciam os cavalheiros apaixonados, os zumbis, os palhaços. Clarice, insone, suspirava envolta nos lençóis.
Bastaria lápis, caderno e boa vontade, pois inspiração não lhe faltava. No entanto, o silêncio da noite fazia ecoar as batidas do seu coração no escuro do quarto e revelavam um profundo vazio nos sonhos e na vida da jovem moradora do lado de cá que ainda não ousara atravessar o rio de canoa, nem dar vida perene aos seus personagens imaginários traçando letras nas noites dominicais.
Entry Filed under: Sobre letras e barcos, conto. Tags: conto, Regina Ramão.
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1.
Madalena Barranco | Junho 2, 2009 at 13:51
Olá Regina,
Adorei sua criatividade e como suas palavras conseguiram atravessar a margem do rio, mesmo que a heroína da história não conseguisse… O calhambeque envenenado deu um charme especial clamando pelo delicioso romantismo.
Abraços.
2.
Dalinha Catunda | Junho 4, 2009 at 15:37
Olá Minha Amiga,
Seu texto ficou ótimo, você se saiu marvilhosamente bem.
Beijos e palma!!!!!! para você.
Dalinha Catunda