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Contos Máterias
Raquel Stanick Todos os sentidos
Suzana Guimarães Luciana Nepomuceno
Celso Mendes
Sandra Cajado
Tatiana Kielberman Letras e Tempestades
Simone Huck
Entrevista Poesia
Mônica Montone Jorge Pimenta
Wania Victória
Lunna Guedes
Thelma Ramalho
A edição Os cinco sentidos da Arte também pode ser lida em formato de revista virtual no endereço: http://www.bookess.com/read/8971-perspectivas-os-cinco-sentidos-da-arte/
Edição. Lunna Guedes
www.meninanosotao.wordpress.com
Produção. Estação Zero
www.francysoliva.blogspot.com.com
Os cinco sentidos da Arte
Fez-se manhã por aqui, já experimentaram reparar no cheiro da paisagem?
Quando eu abro a janela pela manhã, sinto o cheiro do dia com todas aquelas cores se convergindo no meu horizonte temporário. Lavo o rosto com água fria (independente da estação), dou alguns passos pela casa sentindo a textura do chão através das fibras da meia. Alongo-me e saboreio lentamente o silêncio que aos poucos vai sendo corrompido pelos humanos… Há dias em que existe em mim um desejo por ruas e então lá vou eu com uma calma natural. Nada de pressa. As vezes me distraio ao olhar por entre as grades de certas casas ausentes de humanidade. É tudo tão deserto e solitário que custa-me a crer que há pessoas de fato por lá. Não as conheço e olha que vivo por aqui há anos. Tenho vizinhos, eu sei. Ouço seus cães latindo, fazendo festa com a volta do dono, lamentando sua partida e sei o nome de quase todos, mas nada sei dos humanos pelos quais esperam…
Então, viajo no tempo e espaço e reconheço outros traços. Eu tinha uma vizinha chamava Nadir e outra, chamada Anna. A vizinha da frente era Maria (e vinha de uma cidadezinha chamada Santa Maria da Freira onde ela conheceu seu Bruno e mudou-se para Gênova). Ela fazia pastéis de Belém e aquele cheiro tomava conta da rua. O sabor era simplesmente divino. Maria atravessava a rua com uma travessa cheia deles, coberta com um pano para entregar a minha mãe. Dona Nadir fazia doce de leite nos fins de semana para receber os netos. Durante muito tempo os meus finais de tarde de sábado tinham cheiro de doce de leite que vinham para as minhas mãos em potinhos por cima do muro. Deliciosos. Anna não era boa na cozinha, mas fazia colchas lindíssimas. Não havia uma só cama naquela rua que não tivesse sua arte sobre ela. A casa dela cheirava retalho, linhas e agulhas. O chão vivia cheio de pequenos pedaços de pano que ela juntava e dava-os pra mim. Eu gostava de sentir as fibras dos tecidos entre as mãos. Confesso, nunca fui boa com linha e agulha, mas ela me ajudou a fazer uma colcha de retalhos que embalou meus sonhos por muitos anos. E no final da rua vivia o Leco, senhor de cinqüenta e poucos anos, aposentado que tinha como hobby pintar. Todas as manhãs, ele colocava sua velha camisa que só foi branca nos primeiros dias; pegava seu cavalete, sua caixa de tintas e seguia para a praça para “colher suas paisagens”. Voltava no final da tarde e quando passava por mim ainda cheirava a tinta óleo. Descobri através dele que a felicidade tinha cor, sabor, cheiro e numa daquelas tardes passou a ter textura também. Ele me viu ali na escada, sentada, com meu livro em mãos. Sorriu e passou seu dedo ainda sujo de tinta na ponta do meu nariz, foi então que ele disse “você consegue sentir, não é mesmo?” – eu apenas sorri e ficamos assim. Ele foi embora e eu fiquei ali, mas depois de um tempo também fui embora… Mas há dias em que volto a sentir todas aquelas coisas bem aqui dentro de mim…
E por isso, decidi que a última edição da Revista Perspectivas iria convidá-lo a dar atenção aos seus sentidos e reviver o que há de melhor em cada um de nós, porque a arte é um eterno convite ao sentir.
Então, vem comigo?
Lunna Guedes
www.meninanosotao.wordpress.com
Me dão mingaus, caldos quentes, me dão prudentes conselhos, eu quero é a ponta sedosa do teu bigode atrevido, a tua boca de brasa. Adélia Prado
olhar o mesmo olho
com outros olhos
em outro olhar
o mesmo olho
nos mesmos olhos
o olhar do outro
de olho
Alice Ruiz
Amo-te de forma tamanha
Que o céu sobre o mar se derrama
Amo-te tanto que não consigo
Viver um dia sem ouvir tua voz
Simone Conde
Serei eternamente sua pois,
só tu conheces meu cheiro,
meu gosto e meu corpo.
Tatiana V. Mattos
De repente a madeira me trouxe o teu contacto, a amêndoa me anunciava suavidades secretas, até que as tuas mãos envolveram meu peito e ali como duas asas repousaram da viagem. Pablo Neruda
Mas há um sexto sentido dotado de propriedades mágicas, um sentido que nos permite
fazer amor com coisas que não existem… Esse sentido se chama “pensamento".
Rubem Alves
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Acesse www.2edoissao5.blogspot.com
e confira mais os inusitados sentimentos do blog
2 + 2 = 5 que irão aguçar seus cincos sentidos.
Contos
O QUE EU SEI SOBRE OS CINCO SENTIDOS
E UM POUCO SOBRE ETERNIDADE
Por. Suzana Guimarães.
Acredito tanto na eternidade das almas… O resto é transitório. Creio nisso, mas hoje penso na eternidade dos momentos.
Sentei-me à mesa, sozinha, mesa sem toalha, no tampo, coloquei a cumbuca de uvas à minha frente e ao morder a primeira uva (daquelas pequenas, ovaladas, durinhas, de se morder), vi em mim, a minha mãe ou a minha tia I., sentada, comendo castanha portuguesa, nos Natais.
E lembrei-me de ti, que me pediu um texto, que falasse dos cinco sentidos. Logo a mim… Já há uma semana venho pensando neles, tato, audição, visão, paladar e olfato. Logo a mim, moça? Justo eu, perdida nos outros sentidos, aqueles outros, impossíveis de se descrever com exatidão, com a riqueza dos mistérios que os envolvem.
Mas, você me pediu um texto sobre toque, cheiro, e não penso noutra coisa, desde então.
Por que será que aquela visão antiga, minha mãe, minha tia e as castanhas perpetuou-se? E um certo perfume, em um certo homem, bom, o nome do perfume, desconheço, talvez até o cheiro eu não saiba mais, mas o homem e ele dentro daquele vapor, ficou, embora você não o veja ao meu lado.
Quando chove por aqui, eu respiro fundo. Não me lembro mais do cheiro do meu berço, das mantas… mas a terra que acaba de se molhar é o mesmo para mim. Só que o cheiro dura pouco, quase o tempo de uma boa respirada, nada, nada daquilo que meus olhos já viram e já toquei com as mãos, enfiou nariz adentro, molhou-me por dentro, descarregou.
As crianças, quando entram no carro após a escola, cheiram a açúcar queimado.
Sexo cheira a pecado e ninguém me diga o contrário porque cheira. Mesmo que você dê um risinho, mas cheira.
Pão assado nas torradeiras, aquelas de metal, com cabo de madeira (nunca vi por aqui), quadradas, e que você vira de um lado, espera, e depois vira para o outro lado, lembra-me meu tio N. e meus irmãos dizem o mesmo, então o cheiro é dele e ponto final.
Um certo rosto que trilhei com pontas de dedos, toque eterno, devem estar lá, os toques, até hoje, e ninguém vê, mas está.
Do gosto que fica na boca, o pior deles, o salgado, de uma furtiva lágrima que rola, indefesa e se aloja, passo a língua, e isso tem gosto de dor.
Dói o que eu queria ter visto e não vi e o que eu poderia ter ouvido e não ouvi. Dói, onde? Ninguém sabe ao certo. Alguns dizem que dói no coração, e eu penso em pulmão, mas dói mesmo é na visão, qualquer uma, mas principalmente aquela visão que o lança com a rapidez de um foguete e a força de uma explosão à lembrança.
Ela pegava a carteira com a mesma delicadeza da minha mãe, preenchia o cheque, sorria para a moça do caixa, ao entregar-lhe a folha, e eu, na fila, logo atrás dela, a dez mil quilômetros de distância, vi a minha mãe e dos meus olhos escorreram duas lágrimas, uma de cada lado.
Ontem, liguei o aparelho de som, esquecido num canto da sala. A música invadiu o ambiente e a mim também, aquela música esquecida, que eu ouvia por horas, quando conheci o amor. Ontem, então, eu o conheci novamente e não havia mais ninguém na sala. Apenas eu. A música e eu. Quando eu conheci o amor, também não havia ninguém por perto, para eu ver, tocar, cheirar, ouvir ou experimentar com ponta de língua, devagarinho, apalpando o desconhecido.
Sou eu quem faço os momentos eternos? Somos nós? Creio que não, apenas participamos, com nossos sentidos. Enquanto atuamos, uma fotografia é batida, ouve-se o ‘clic’, a visão da vida se faz nítida, sentimos que estamos vivos, há cheiros, há maciez e aspereza à nossa volta, podemos tocar e ser tocados, podemos nos entender como parte do todo, mas ainda é pouco, e sempre se eterniza a certeza de insuficiência.
A mim, fica a lembrança, oferta dos sentidos, presente da existência
DOS MISTÉRIOS
Hoje eu me encolhi entre lençóis depois de pensar muito abraçada à uma solitária taça de vinho. Era muito tarde, como sempre, e todos dormiam nessa casa que não é mais nossa. A chuva fez correr um Rio Letes entre as minhas pernas, apagando com doçura e uma sabedoria mais antiga que o tempo os resquícios de suas mãos no meu corpo.
Persistente, a matéria é chuva e telhado e trama que me aquece. É o livro que me sussurra e solta odores dos antigos mitos, é o DVD de quase agora. São os meus dedos nesse teclado.
É essa á a grande inveja dos deuses, nós somos.
Encontre seu próprio fio, homem, tenho muitos labirintos ainda a construir.
E porque hoje eu paguei ao barqueiro com minhas últimas três moedas te confesso que foi com todo o peso da minha carne que eu te amei.
Adeus, Aquela.
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Raquel Stanick
http://raquelstanick.blogspot.com
CÍRCULOS
Deitava o vento com a boca amordaçada. O seu silêncio era imposição dos girassóis que refletiam-lhe os braços, as mãos e seus dedos amarelecidos. Mascava o sol dia pós dia, desconfiado, e se sentia cada vez mais enraizado. Gostava do azul das manhãs e do laranja das auroras. O marinho da noite o embriagava. Mantinha, secretamente, olhos de nadar estrelas. A lua costumava tocar suavemente suas costas até que adormecesse. Após isso era a o medo da treva, era atrás dos astros, era depois dos sonhos. Se houvera luz, não se lembraria. Mas o tempo sempre lhe foi muito orbital. Não entendia por que as coisas tinham essa mania de orbitar. Retas, pois sim, retas eram apenas uma eterna ilusão de caminhos; nunca levaram a um novo ponto. E foi assim que, mais uma vez, o sol se desprendeu do seu bocejo, preguiçosamente. Ainda não era a hora da escuridão.
Celso Mendes
Blog na internet: Sentidos e Direções
http://sentedire.blogspot.com/
DEGUSTAÇÃO
Todos os dias eu o encontrava no calçadão. Era apaixonada por ele. Pelo cheiro dele que todas as manhãs dançava nos meus sentidos ativando as minhas fomes. Pela barba perfeitamente séria salpicada aqui-ali de fios brancos e festivos mexendo com meu paladar. Pelos olhos altivos que nunca me reconheciam. Por aquela postura de querido e admirado catedrático de literatura. Eu o amava desde sempre, mas não sabia dizer porquê. Vezes sem conta tentei entender – como se amor precisasse ser entendido. Não o amor, dizia a mim mesma quando o coração destrambelhava bobo naqueles encontros. Não era o amor que eu queria compreender. Era aquela vontade de degustar lentamente o mais precioso vinho da adega.
Foram incontáveis dias de amor assim, unilateral. Um dia me mudei e o amor começou a se explicar. Era puramente sensorial. Sem os cheiros e imaginados sabores, ficou esquecido no mais profundo de mim.
Tempos depois, nos reencontramos. Não. Eu o reencontrei. Não me reconheceria porque nunca me conheceu verdadeiramente. Ele me encontrou pela primeira vez. E começou um namoro. Um namoro de letras. Ele escrevia, eu comentava. E discutíamos nossas opiniões e falávamos de situações correlacionadas. Tudo por e-mail. Durante muitos e muitos dias fui apenas mais uma leitora que a nova ferramenta da net proporcionava. Eu estabelecera um jogo que ele ignorava. Mas jogava. Até eu me cansar.
Um dia virei o jogo. Comecei a inserir opiniões dele próprio – palavras que a minha memória cognitiva guardava e nem eu mesma sabia delas. Ele estranhou, perguntou e por fim intuiu: eu era uma antiga aluna. Mas quem? Quando ele me identificou como a aluna quase-invisível, e posteriormente a mulher do calçadão, já estava apaixonado. Mas meu amor já não era paixão. Era uma vontade imensa de prová-lo para substituir o gosto tantos anos imaginado.
Ainda guardo os sabores. O melhor deles vem das noites em que degustávamos, lambíamos e comíamos poesia.
Por Loba
www.lobamulher.blogspot.com
ELES, MENINO-MENINA
Ela é mais menino do que eu.
Ela usa relógio e eu acho um incômodo insuperável em meu pulso. Ela sabe de futebol como eu de cozinha. Enquanto assiste aos jogos, eu faço o almoço e ela diz que gosta da minha comida, do meu tempero, do meu beijo com gosto de molho que como, de como molho sua pele com a língua salgada e da mistura dos sabores nossos. Escala o seu time e conhece a tabela do campeonato. A única partida que entendo é a que jogamos juntos: empate no placar. Ela usa botas e unhas coloridas que combinam com os brincos de bolinhas, que colorem seu rosto moreno e meus olhos quando vejo. Rabo de cavalo que balança, mochila nas costas e uma sedução apropriada e discreta quando sorri com o canto dos lábios. Minha menina de bolinhas negras na face que me enxergam e eu não desvio. Envio sinal verde pra ela entrar.
Ela é mais menino do que eu.
Nunca gostou de boneca e eu brinquei de casinha. Ela luta e eu pinto. Não sabe costurar e eu alinhavo. Ela cuida mim, não deixa que eu roa unhas. Eu cuido dela, dou colo e faço dormir. Subo e desço em suas curvas e nelas me perco, lá me esqueçam! Debaixo de seus vestidos flutuo, suas calcinhas de bichinhos são minha redenção, merecem uma prece e serem tiradas sem pressa. Faço música pra ela e toda vez que canto, ela chora, diz gostar da minha voz e canta junto, mesmo em desalinho, aninhada em meu peito. A gente se desencontra às vezes, mas sempre se acha. Temos um pacto mancomunado com o sagrado. A gente se reconhece, se inventa e se parece tanto que eu sou ela de calças e ela sou eu de saia. Mesmo que eu seja mais menina do que ela e ela seja mais menino do que eu.
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Fernand’s
http://bemditaspalavras.blogspot.com
GULA OU PERVERSÃO
Liora não era uma transeunte qualquer que pertencia àquela sociedade de palavras e gestos hipócritas. Era voraz em pensamentos, sentimentos e expressões. Devorava a vida até a sua última gota, sem cessar… Até porque não saberia agir de outra maneira.
Seu nome – que, em hebraico, significava “Para mim, és luz” – fazia com que ela tentasse, o tempo todo, ser luz para os demais. Mesmo que, para isso, precisasse abdicar de ser luz para si mesma.
Desde muito cedo, fora criada em uma redoma de vidro. Uma verdadeira bolha. Suas atitudes eram milimetricamente observadas por seus pais, para que nada saísse do prumo.
No início, não conseguia realmente entender por que eles agiam daquela maneira. Buscava até amenizar a impressão de ser superprotegida, quando amigos ou conhecidos da família questionavam o modo de criação da menina. Afirmava que os pais a amavam muito e que esse era o jeito que eles tinham de demonstrar afeto. Talvez preocupação e carinho, também, em uma intensidade acima do padrão comum.
Mais tarde, quando se tornou capaz de compreender o que se passava, deduziu que eles faziam aquilo para suprir suas próprias carências, projeções e expectativas. Eram frustrados em muitos aspectos de suas vidas e queriam, provavelmente, acalentar a filha como haviam sido acalentados.
Vale lembrar que o nascimento de Liora também não fora nada fácil. Sua mãe fizera diversos tratamentos até poder engravidar e, quando finalmente conseguiu, o parto precisou ser adiantado, acarretando problemas respiratórios na menina durante alguns dias após a cesariana.
A partir desses fatos, é possível entender um pouco do comportamento obsessivo dos pais da garota, que perdurou bem mais do que deveria. Vigiavam seus passos, mal deixavam que ela saísse de casa e tinham muito medo de que qualquer coisa ou pessoa a machucassem. Sentiam verdadeiro pavor de apresentá-la ao mundo. Preferiam deixá-la oculta, incentivando-a a ler, escrever e manter sua imagem o mais escondida possível.
Porém, logicamente, muitos detalhes escapavam de seus genitores e, nesse meio tempo, Liora utilizava sua válvula de escape predileta para se defender: a comida.
Ela se alimentava bem mais que o normal e, ao final das contas, não se preocupava muito com sua estética ou saúde, desde que pudesse colocar o máximo de comida possível dentro do estômago. Tudo que precisava “engolir” no dia a dia – palavras, agressões, medos, angústias, inseguranças – depositava nos alimentos e os engolia com uma velocidade impressionante…
Quando se sentia pressionada ou nervosa demais, comia para aliviar a alma. Se a solidão batia à porta, supria tal falta ingerindo o que estivesse à sua frente, sem grandes critérios de escolha. E, para se vingar – mesmo que apenas internamente – dos pais, não poupava esforços para ativar ainda mais seus instintos em direção à comida.
Essa gama de procedimentos já havia se tornado rotina na vida de Liora. De uma alimentação incomum, passou à gula, depois à compulsão, chegando, por fim, a um sério transtorno alimentar que, aí sim, não poderia mais ser controlado por seus pais, de maneira alguma.
Eles pareciam cegos quanto a essa questão; diziam que Liora deveria ter, no máximo, um “paladar um pouco mais aguçado que o normal”. A menina, por sua vez, detestava a palavra “normal”. E o que ela tinha, na realidade, passava bem longe disso – sua relação com a comida havia ultrapassado todos os limites de saúde mental, física e emocional.
Não era apenas gula, era perversão. Dela para si mesma, em um ciclo sem fim. Apesar de se mostrar ativa para o mundo, cativando a tudo e a todos, Liora precisava se esconder atrás de um grande véu. Um véu que a protegesse tal qual a redoma que seus pais construíram à sua volta na infância, mesmo que isso a ferisse por dentro.
A menina adoecia mais, dia após dia. Não sentia mais o gosto nem o paladar dos alimentos – devorava-os por osmose, sempre em grande quantidade. Parecia gostar desse jogo de perversão que armava para si mesma, ainda que, no fundo, tudo isso fosse reflexo de uma profunda carência – de tão grande, jamais conseguiria ser suprida.
Ao final da adolescência, Liora alcançou o auge de seu peso e já não conseguia andar. Adquiriu todos os problemas de saúde possíveis e, enquanto sentia seu corpo deteriorar, o coração ia pelo mesmo caminho. Era tarde para voltar atrás: sua luz não era capaz de iluminar nem mesmo uma formiga.
Faleceu aos 26 anos, enquanto dormia. Uma morte tranqüila para aquela vida um tanto quanto turbulenta. Mas, ao menos no momento de sua partida, Liora conseguiu cumprir a missão que a trouxe ao mundo: ser uma luz para si mesma. A partir daquele momento, foi serena. E foi feliz.
Por. Tatiana Kielberman
www.whenshedanced.blogspot.com
O SENTIDO DAS CORES
Enquanto me perdia em pensamentos caminhando pelas ruas e vielas do centro histórico da cidade que se auto intitula de ilha do amor, me vi num cenário tipo balões de diálogos de quadrinhos cujo os cinco órgãos dos sentidos estavam aguçados, tranzendo as sensações que davam vida ao enredo da estória criada pela minha mente.
Era mais ou menos assim:
Em um sótão distante do armazém do século passado, a menina fugia com seus pincéis acompanhados de bisnagas variadas em cores, nada muito excessivo, pois as tonalidades prioritárias que davam sentido ao que estava vivendo, estaria lá para representar com exatidão o turbilhão de sentimentos ora contidos, ora não.
Enquanto as mãos tateavam as tintas sincronizadas pelos pincéis, o cheiro do amor que remetia a cena, se mesclavam com o gosto das lágrimas da saudade proporcionando um doce paladar pelas lembranças boas, apenas as boas.
O silêncio vivido no momento ecoava bem alto pelas batidas internas do coração, uma espécie de disritmia causada ao fechar os olhos.
Naquela dia, eu tive a certeza que os meus sentidos estavam coloridamente marcados pelo seu doce olhar, seu cheiro inconfundível, seu toque essencial, seu gosto saboroso com um breve sussurro em seu ouvido.
A obra? A partir desse dia onde tive um encontro comigo mesmo, a tela em branco criou novas cores cuja estória de amor nunca mais será o abstrato e sim o concreto pelo resto de nossos dias.
Estará lá o nosso memorial de amor ultrapassando limites de geração em geração onde a assinatura será o selo que um dia houve algo real entre nós.
Por. Sandra Cajado
Matéria.
Como você aprendeu a amar? Quer dizer, partindo do princípio que, no ser humano, aspectos como pensamento, sentimento, linguagem, não são naturalmente dados, mas construídos socialmente, é preciso reconhecer que a forma como amamos, as palavras que escolhemos pra falar do nosso sentimento, os gestos e reações que temos à presença ou ausência do objeto de amor, tudo isso é produto de nossa interação com eventos e pessoas específicos que foram operando como mediadores da formação de nossa forma de amar.
Então, repito, como você aprendeu a amar? De onde vem seu dicionário particular? Eu aprendi a amar em filmes. Com meus pais, antes que alguém argumente, aprendi coisa melhor, aprendi a viver junto com paixão. Mas o apaixonar-se eu aprendi mesmo foi entre cenas, intervalos, imagens e diálogos. Por exemplo, lânguida. Sinto-me lânguida na presença do objeto do meu bem querer. Sentir-se lânguida com certeza é uma construção literária, não acha? E escrevo cartas.
Escrever cartas logo me lembra mulheres de corpete apertado, mãos crispadas sobre o peito amassando lindas e delicadas folhas de papel. Amar pra mim é morte, delírio, loucura, entrega, abismo.
De onde todas essas palavras?
Filmes, claro.
Aprendi a amar delirantemente com O Morro dos Ventos Uivantes. Aprendi a amar com sacrifício e morte com A Dama das Camélias. Aprendi a resistir e a entregar-me como Debora Kerr em Tarde Demais Para Esquecer. ![]()
Aprendi sobre traição, estilo, abandono, mentiras, sobre sedução e ternura. Aprendi sobre ser mulher. Sobre ser eu. Sobre como eu devo ser pra amar como eu sou. Aprendi, também, sobre deixar, sobre seguir, sobre matar. Aprendi nos filmes os gestos, a trilha sonora, o cenário e o roteiro de uma estória de amor. Aprendi sobre o doce e sobre o amargo, sobre partidas e reencontros. Suplício de uma Saudade. Matrimônio à Italiana. Um bonde chamado desejo. Laços de Ternura. Até os títulos dizem do meu sentir. Aprendi como não dar a mínima com Gable e aprendi com Scarlet que amanhã é outro dia, o que quer que isso signifique. Aprendi a não deixar que o amor seja maior que a honra, a não se esquecer de dizer te amo, a não fugir do raio, aprendi isso nas paisagens da Sicília sem lá ter ido, apenas com a família Corleone como guia.
Aprendi como usar o leque imaginário com que me abano sempre que o desejo parece me sufocar. Aprendi a ser frágil. A ser meiga. Aprendi a ser Calamity Jane, a ser gata em teto de zinco quente, a ser indomável Katherine.
Foi com o cinema que aprendi a suspirar. Você lembra-se do seu primeiro suspiro? Suspiros são pequenas mortes, menores que os orgasmos, maiores do que nossa impávida e maquinal ação de inspirar/expirar. Suspirar é admitir. Admitir uma falta, uma ausência, um erro, um limite. Suspirar é indicar a medida do impossível. Há toda uma gama de ensaios de suspiros na minha infância, eu imagino: a primeira fome, o primeiro brinquedo guardado, a hora de dormir, o primeiro não. São ensaios, são ensaios. O primeiro suspiro que devo ter dado, eu lembro (lembro? claro que não, mas gosto de reinventar-me assim) foi para Bogart. Ou por ele, melhor dizendo. Em que filme? Em qualquer. O olhar cansado, a capa de chuva – sim, devia ser Marlowe; o andar tão firme, as tristezas tão grandes. Meu primeiro suspiro deve ter sido por ele, quero que tenha sido. O Bogart de uma mágoa que nos obseda, esse é o apelido do meu primeiro anseio.
O cinema moldou o meu sentir. Os meus sentidos. Há tudo lá, naquela tela imensa, maior que o mundo, menor que cada um que a fita. O cinema é bom quando convida nossos sentidos pelo que oferece pelo que tenta, pelo que nos deixa consciente do que está a mostrar. E é melhor quando justamente dá aos sentidos a noção de ausência, a promessa de devir. O melhor filme é aquele que quase nos faz esquecer que temos um corpo e aí, zás, como um tapete que nos puxam, lança-nos de volta a ele, corpo, em sua fome.
O cinema nos vem pelos olhos, claro. É sua auto-estrada, rodovia preferencial. As cores são seu convite mais expresso. Luz feito cor nos fulgurantes Sapatinhos Vermelhos que, em um valsar de morte nos inquieta ou na explosão colorida em Technicolor de O Mágico de Oz. Mesmo hoje, em tempos não tão auspiciosos e filmes menos substanciais, ainda são os azuis e verdes que dão o tom de fantasia à Avatar. Mas é no P&B dos noir que o cinema faz cúmplice o olho de quem vê. Paul Newman sempre teve de tão seus os azuis olhos. Mas nunca foram tão expressivos como no sem cor de The Hustler, Desafio à Corrupção. É assim o a mais do cinema, onde já há tanta beleza, blue eyes, ela se nos esconde pra que mais outras vejamos.![]()
E o ouvir? Segundo sentido invadido pelo cinema. Somos tomados pelas trilhas sonoras generosas em beleza como as que Morriconne ou Nino Rota oferecem. Canções inesquecíveis: Love is a many-splendored thing, Gabriela, Raindrops Keep Fallin’ on My Head, tantas que parecem fazer do sentido audição fonte de prazer privilegiada. Mas o cinema não é encantador só no que dá, mas no que nega e o som que melhor escuto é quando não há. Como nos filmes mudos de Chaplin em que, sem que haja verdadeira emissão sonora, suponho ouvi-lo ao vê-lo, e escuto cada colher que cai, cada barulho de passos, cada tombo, melhor do que escuto o que acontece mais próximo. Perdo-me no sem som do cinema.
Como nos perdemos no deleite do excesso. Do que sobra. Do que tenta nossa boca. Suculenta maçã se oferece à Branca de Neve e, mesmo em desenhos, nossos dentes coçam por mordê-la. Salivamos em Festas de Babettes com tantos nomes que nos fazem cócegas às papilas: Tempero da Vida, Como Água para Chocolate (ou, mais diretamente, Chocolate, com Binoche e Johnny Depp), La Grande Bouffe com Mastroianni, Comer-beber-viver (não confundir com o enjoativo Comer-rezar-amar). Filmes que mostram, que revelam, que desvelam iguarias e insinuam sobores. Mas o paladar também se ouriça em vazios. Em fome. Como quando Vivien Leigh, uma Scarlett humilhada e faminta, agarra e rói um nabo velho. Ou quando Gene Tierney rasteja por um saco de legumes em uma das únicas três cenas em que aparece, mas com que intensidade deseja comer! Ou ainda, um paladar que se acende não diante de comida, mas diante do outro, como Antonio Banderas saliva por Victoria Abril em Ata-me. Salivamos juntos.
E os cheiros? Do ralo ou não, lá vem o cinema com seu excedente de odores a nos fazer acreditar em uma alquimia que imagens pudessem ser sentidas pelo nariz. Sentimos o perfume embriagador da femme fatale quando se aproxima do incauto detetive. Sentimos a poeira levantada pelas carroças em vastas planícies de Oeste americano. Sentimos o cheiro do que queima nos filmes-catástrofe. Sentimos o perfume que se destaca nas panelas de Ratatouille. Sentimos os cheiros de peixes e de queijos em banquetes. Mas eu não sei, nem em intuições, os odores que seriam, se houvesse tempo ou palavras, que seriam de cada um: ator e personagem. Que cheiro teria nosso personagem? O nosso?
Mas é o tato que melhor diz da minha relação com o cinema. Muitas vezes chego cedo para acariciar a tela, transmitir-lhe meu anseio. O cinema nos dá texturas. Promete contatos. Em musicais há sempre a certeza dos corpos, materiais, consistentes, vigorosos, para neles caber os diálogos que sempre são necessários. Quero tocar a leveza do vestido da que rodopia no braços de Astaire. Quero sentir a seda contra a pele nua. Quero esse beijo que permanece durante todos os créditos finais.
Foi o cinema – e continua sendo tantas vezes – que me deu o gabarito do sentir. É por todos os sentidos que ele alcança e por todo o sentido que ele me permite que eu lhe dê, que eu amo e vivo o cinema. Os meus temas são os de sempre: amor, morte, solidão, liberdade. As minhas formas de viver são estilos: suspense (será, será, será que ele é ele? será que tudo vai dar certo? será que não fiz caca?), uma grande necessidade de dramas, um anseio por momentos épicos e, normalmente, um tombo enorme na comédia porque sou mesmo desastrada e exagerada. Essa é a verdade essencial sobre mim (trilha sonora de revelação, por favor): eu exagero. Então, embora admire a elegância de Bergman, minha alma barraqueira é uma cruza de Fellini com Almodóvar. Embora ache chic ser meio blasé como Bertolucci, no fundo eu me desmancho nos filme de Capra, embora reconheça a contribuição estética da sangria desatada de Peckinpah eu gosto mesmo é dos horizontes a desbravar de John Ford. E assim caminha a humanidade (um dos meus favoritos de sempre) ou, pelo menos, assim caminha a minha humanidade, talvez de trás pra frente.
Entrevista
Como nasceu Mônica Montone? Nasceu nua. Nasceu de uma bailarina, de uma cantora, de uma atriz menina. Nasceu em Campinas, onde deixou numa roseira seu umbigo e alguns sorrisos. Poeta? Nasceu quando descobriu o abismo, já morando no Rio de Janeiro…
Poeta já nasce pronto? Ninguém nasce pronto para nada! Nem macarrão pronto nasce pronto, ele precisa de água quente para existir. Mas também não acredito que a poesia possa ser ensinada. Ser poeta é um jeito de perceber a vida e jeito cada um tem o seu, não é algo que se ensina, embora se aprimore.
Descobrindo seus pares De carne e osso, Claufe Rodrigues, Salgado Maranhão, Tanussi Cardoso, Affonso Romano de Sant’ Anna, Domingos Oliveira, Carol Montone, Viviane Mosé, pai, mãe, avó, avô, DeRose. De alma alada, Mario Quintana, Jorge de Lima, Vinícius de Morais, Borges, Clarice, Van Gogoh, Billie Holiday, Bob Marley, Sinatra, Sartre, Yves Saint Laurent
Quem mais te dinamitou? As pessoas que nunca me deixaram desistir, mesmo nos momentos mais difíceis!!
Onde busca seus temas? Acho que são eles que me buscam e não o contrário, por isso, sempre tenho na bolsa um bloquinho e uma caneta preta. Quando eles sobrevoam meu céu, o papel.
Quantas personagens habitam em você? Difícil saber
Qual delas já te levou a loucura? A que não sabia lidar com a frustração do fim das coisas e casos. Felizmente me livrei dela!
Qual delas já se retirou para um canto escuro e chorou? Todas. Se bem que, a maioria delas não precisa de canto escuro para chorar, eis um ponto comum entre todas: elas não temem o olhar alheio.
Fale do seu livro "Mulher de Minutos". Como surgiu o título? Embora o título seja Mulher de Minutos o livro não é sobre mulheres, tampouco sobre uma mulher chamada Mônica Montone. Logo no primeiro poema eu declaro que “não sou mulher de minutos” e no decorrer das páginas o leitor encontra mel, pimenta, dúvida, vertigem. São poemas que falam da vertigem de assistir espetáculos estranhos como os das balas perdidas no asfalto e da náusea de não saber-se. São poemas que falam sobre o gozo, a paixão, o amor, o assombro. Um livro que me trouxe muitas alegrias.
Pega e larga. 
IDENTIDADE Mônica Cristina Montone
AVESSO Mônica Montone
MANIFESTO Escritora
INTUIÇÃO Sempre sigo minha intuição, portanto, sou o que gostaria de ser e estou onde gostaria de estar
BRASA Culpar alguém pelos meus erros, dizer que fiz uma coisa que não fiz, comer carne.
POESIA FAVORITA Impossível escolher uma
PALAVRA INDIGESTA Injustiça
SENTIDO FIGURADO Perfume
MODA Amo, inclusive já estudei
ESTILO Romântico, retrô, moderno
PATIFARIA Segurança pública
AGARRO Quem amo
LARGO Gente burra
QUEBRO A cara, mas pago pra ver
PARADOXO Todos
ATOR Os que atuam
POETA OS que lêem
ATRIZ As que atuam
AUTOR Os que abandonaram o próprio umbigo
DIRETOR Os que dirigem
COSPE Ervilha
Matéria.
Como se define um escritor? Muitos acreditam que é escritor aquele que tem um ou mais livros publicados. Assim sendo, se você nunca publicou um livro em sua vida; esse não é exatamente o seu caso. Certo? Pelo que tudo indica, essa é uma teoria cada vez mais equivocada.
Não é novidade alguma que a internet causou sérias mudanças no cotidiano de muita gente; a começar por aqueles que escrevem. Se antes, era preciso enfrentar o difícil processo de avaliação nas editoras, considerados por muitos como sendo um "trabalho sujo", secundário, feitos por estagiários e com aproveitamento muito baixo. A Record, por exemplo, nos últimos 12 anos publicou somente dois livros pinçados de sua enorme pilha de originais. Assim sendo, é pouco aconselhável se aventurar por esse caminho, mas desde o surgimento da internet é que os escritores possuem outros caminhos: você só precisa ter um blog. É exatamente isso que tem feito muitos escritores.
Alguns escritores estão concebendo folhetins (novels) para ser lido na tela; escrito em pedaços, com capítulos curtos, onde é possível ler partes, pedaços de cada vez.. O discurso é o mesmo: "prefiro ser lida a ser publicado em livro pra ficar no estoque da editora ou num canto do armário". Mas o que parece atrair cada vez mais escritores é a possibilidade de ser lido quase que simultaneamente à produção escrita.
O fato é que a internet ainda não conta com tanto prestígio e tem muitos escritores que ainda preferem ver seu trabalho impresso, porque tem uma visão mais romântica acerca do livro; o tato.
2. O leitor.
Mas se você é um leitor, o papo já é outro, afinal, a definição de leitor é mais simples. Basta que seus olhos busquem por palavras e não importa onde irá encontrar. Os alvos são muitos: livros, jornais, bula de remédio e centenas de páginas na internet.
Escolher o que ler não é tarefa fácil, ainda mais se o gosto pela leitura não for incentivado desde a infância.
O que se houve geralmente é que ler não é a atividade favorita do brasileiro que prefere distrair-se com a televisão, teatro ou cinema; e hoje ainda há o tentador universo dos games, que estão cada vez mais ousados e a cada dia, conquistando mais e mais seguidores.
O discurso comum é que há muitos livros para tão poucos leitores; com base nisso há quem diga que nem mesmo os clássicos da literatura estão sendo lidos, ficando restritos aos estudantes que os lêem apenas por obrigação e se tivessem opção de escolha, se recusariam terminantemente a fazê-lo.
Mas se realmente é assim, como se explica os 30 mil downloads do romance escrito por Alex Castro? E os milhares de acessos e comentários diários nos inúmeros blogs que só fazem aumentar na internet? Os assuntos são os mais variados e a possibilidade de escolha é o que talvez agrade o leitor. A facilidade como o assunto é tratado e a idéia é desenvolvida. Gente comum, escrevendo com a naturalidade que foi amplamente discutida por Mário de Andrade que defendia que a literatura deveria abrir espaço para o popular, palavra da moda…
O que se faz nos blogs é um work in progress, algo mais tosco, com uma linguagem ágil, rápida que busca aquecer o leitor com suas idéias, mas sem expor o mesmo a dilemas que se arrastam e se perpetuam. Tudo é muito breve e precisa se renovar. Não é fácil manter um leitor fiel, conquistá-lo e ainda que o blog tenha apenas um leitor, é preciso respeitá-lo e acima de tudo, saciar sua vontade, seus devaneios. Descobrir o que o trouxe até você e o fez voltar é o trabalho desses escritores em tempos de páginas virtuais. O livro não foi e nunca será substituído, mas é bem possível que se transforme em outra coisa.
3. Novas ferramentas de publicação
O que se percebe claramente, é que tanto escritores quando leitores estão sofrendo gradativas transformações. É preciso pensar a escrita, o formato de publicação e claro, dar maior atenção aos leitores. Sim, eles existem e estão mais famintos que nunca. O fenônemo da internet, ao contrário do que chegou a se prever não fez desaparecer os amantes das palavras. É fácil dizer que nunca se leu tanta poesia como nos dias atuais e que o fenômeno dos download facilitou a aquisição de livros. Ainda se lê muitas bobagens; mas quem lê Paulo Coelho hoje, talvez amanhã esteja lendo Virginia Woolf e outros grandes autores.
E quanto ao escritor, é preciso adaptar-se a modernidade e sobretudo, compreender que o formato impresso não é mais o único meio de publicação. Os blogs estão aí, mas é preciso saber utilizá-los e ao conquistar um público fiel, é preciso mantê-lo e talvez até mais, é preciso investigar o motivo da afinidade e honrá-la.
Todos os dias pipocam pela internet informações sobre como fazer de seu blog um sucesso e talvez o maior problema esteja nessa palavra: sucesso. Há uma pressa nunca vista antes, consumindo a pele dos artistas em geral. Não se pensa a arte, se projeta além de suas possibilidades como se o homem, antes de tudo, já tivesse nascido artista ou jogador de futebol, fadado as glórias e as grandes conquistas. Tudo é pra ontem e o futuro não pode passar de agora.
O processo é lento, o tempo não mudou sua velocidade, nós é que estamos indo depressa demais. O processo criativo precisa de reparos e cuidados. Nada nasce pronto, nem mesmo os gênios. Eles levam nove meses para virem ao mundo e outros tantos para serem algo de concreto. Antes disso, são apenas promessas…
Antonia Pellegrino, escritora, roteirista de novelas da TV Globo começou em 2003 o blog “Inveja de gato” – com vontade de publicar, ela não imaginava que teria leitores. Com disciplina para escrever e postar, começou a fazer parte de uma rede de sociabilidades de novos escritores que possuíam blogs, como João Paulo Cuenca, Cecília Giannetti, Augusto Salles, onde se conversava e dialogava sobre este novo formato de produção. "Houve uma espécie de democratização da escrita, sem mediador, com contato direto com o público, algo revolucionário", acredita Antonia. A autora conseguiu vários trabalhos como a coluna na Tribuna de Imprensa, na Tpm, os trabalhos para a Vogue e Piauí, por causa do blog.
Muita coisa mudou de fato nos últimos tempos, mas uma coisa permanece inalterada “é preciso talento” para conquistar leitores porque os filtros continuam a existir. Enganam-se os que pensam que a internet veio para libertar os exilados. O leitor só volta a um blog pelo mesmo motivo que volta a um livro: conteúdo.
Matéria.
Letras.
O que não pode ficar em silêncio. O avesso da pele. A dúvida que reina entre as sombras. A pele que abrasa; a alma que se apressa. O amor que se recebe no dia anterior e se nega no dia seguinte. A palavra que não se compreende. A página em branco, as letras borradas e a janela embaçada… O futuro apagado dos olhos, o passado negado, o presente acumulado…
Tempestades.
Flutuações no meio do caminho. O passo que não se ajusta as irregularidades das calçadas. O céu que não transborda. A palavra que não existe. O silêncio que não se supera. O pretérito como marca registrada na pele, na alma. O futuro enquanto ausência, o presente que não desperta interesse, pois tudo é ontem…
Janeiro escorre o que o silêncio não ousa dizer.
E a saudade,
coberta velha de apegos,
aquece a incoerência das coisas
que deitam sombras.
Nunca fomos imortais,
admita o que a sua ânsia omite.
Nem tão pouco,
dignos de não receber a migalha do perdão.
Que super-homem habita o teu peito?
Do que é feito o orgulho que escarra pela
sua boca quente?
Janeiro era tão pouco para sermos muito.
E para ser muito, é preciso saber ser nada.
Uma redução de poeira e lembranças,
dentro do mesmo túmulo que abriga
a sua maior dor.
Vou cuspir a poesia engasgada.
Algo duvidoso e ainda assim,
forte.
É apenas fevereiro.
Não deveríamos descansar?
As máscaras foram transferidas para março,
ainda há tempo para sermos transparentes.
Amanheço tempestades
e não deito letras.
Fecho os olhos.
Tudo esteve no antes.
A solidão esconde-se
no escarro que a minha garganta omite.
Mastigo palavras:
quero o eterno dos silêncios.
Meu fígado não sintetiza meus adjetivos:
mastigo detalhes.
Engasgo os vazios que minha alma grita.
Almoço pretéritos imperfeitos
e arroto lembranças que não dizimo.
Toda vez que deito,
meus olhos se abrem e não durmo.
Só pode ser setembro.
Abril, abriu.
Abril calou.
Abril esqueceu.
Abril seguiu, sem saber se era dia ou noite.
Abril ouviu. Mentiu, adoeceu.
Abril partiu.
Como as flores, diariamente nascendo e morrendo.
Como as palavras, constantemente admitindo-se.
Como as músicas, permanentemente mudando.
Abril abriu o tempo de sermos outros em tantos.
Trouxe o outono,
trouxe a lágrima e trouxe em sua bagagem
o sorriso querendo ser permanência.
Abril nos libertou.
Eram feitas
de maçãs-dezembro
todo o exílio
dos meus dias.
E chovia,
como chovia.
Mas foi a lágrima
que borrou teu nome
no meu papel.
(…)
Não há o que admitir dezembro,
será que você não entende?
Todas as guerras iniciam-se e terminam em você…
Nesse seu discurso de paz, habitam as dores
de uma humanidade colididas no peito.
Não há o que omitir dezembro, diante de você,
difícil não ser transparente.
Máscaras caem.
Palavras sufocam.
Guerras camuflam-se pelas luzes
da falta de esperança.
Estou cansada.
Rendo-me. Você venceu. O que mais quer?
Leve com você tudo o que um dia foi meu.
Leve com você tudo o que um dia valeu.
E me deixe, ao menos, respirar.
E me deixe também, assim, sem inspiração,
apenas com a o obrigação vazia de lhe escrever
uma carta debochada e sem nexo.
Assim, ultrajados, quem sabe seremos nós mesmos.
Entre tantas sílabas,
junho escorre,
afogando a solidão num copo cheio
de vogais que não se calam.
Os meus “nãos” sempre foram viscerais,
nascidos na sombra
da minha explosão que não dorme.
Envelheço na regra e na palavra.
Máteria.
Quando o ano acaba, o que geralmente sentimos é aquela boa e velha sensação de alívio: "mais uma etapa cumprida". É hora de calcular o que foi bom ou ruim ao longo de todo um ano. Mas você se lembra do que fez ao longo de cada um dos 365 dias que compõe um ano? Pra muitos é uma vida inteira, para outros apenas uma parte. Seja como for, é um ano e assim sendo, há de se somar as nossas atitudes: cometemos falhas, alcançamos conquistas, sofremos derrotas, levantamos, caímos, adormecemos, despertamos. A lista é grande. Já pensou em contar quantos beijos na boca você deu ao longo desses 365 dias? Ou então saber de cor a lista de quantas meninas paquerou?
Pouco provável, não é mesmo. A maioria das pessoas se esquece rapidamente de coisas pequenas. Lembram-se apenas de uma ou outra coisa que por alguma razão marcou profundamente um ou outro dia. Então como concluir que o ano foi bom ou ruim? A resposta pode não parecer nada fácil, mas tem muita gente por aí que consegue enumerar todas essas coisas em poucos segundos “eu vive um grande amor, foi um sonho, foi breve, mas foi real e ainda sinto saudades. Foi de fato o melhor ano da minha vida. Respirei fundo quando chegou ao fim e desejei tudo de novo e de novo e de novo. Fui lá e joguei moedas nas águas do mar. Não faço promessas, sabe? Mas penso positivamente. Nunca me lembro das coisas ruins porque elas não tem importância alguma. Eu fui feliz e acabou. Foram muitos momentos maravilhosos que vão estar comigo para sempre”. – comenta Luiza Amaral, decoradora e blogueira.
As expectativas são muitas. e talvez seja por isso que a meia noite do dia 31 de dezembro o mundo é envolvido por toda aquela energia que nos leva a distribuir votos de felicidades, abraços radiantes, desejos de continuidade, conquistas e tudo mais…
Mas passa o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto dia e a rotina volta ao que era antes, como se a vida apenas continuasse, sem necessariamente ter chegado ao fim, como muitos de nós costumam pensar. “Ao longo da vida, sempre fiz mil promessas no dia do Réveillon. Conservava dentro de mim a fútil crença de que, às 23h59 do dia 31 de dezembro, poderia passar uma borracha em tudo o que havia acontecido naquele ano. Assim, em questão de segundos, estaria pronta parece receber o dia 01 de janeiro de braços abertos e, às 00h00, as coisas teriam a permissão para começar de maneira diferente; porém, isso quase nunca funcionava. As promessas permaneciam válidas nos primeiros dias, semana ou meses” – informa Tatiana Kielberman…
A esperança que se acende no final do ano, aos poucos, vai esmaecendo e somos surpreendido pela continuidade. Os assuntos maus resolvidos no passado não tão distante, voltam a tona e quando nos damos conta dos dias e meses a nos atropelar, acabamos por perceber que de fato, nada do que foi prometido naquele momento de festa, foi de fato comprido. As promessas se esvaziam, assim como o ânimo que escorre pelos nossos músculos e nervos exaustos…
Enfim, voltamos a rotina natural dos dias que se atropelam. Nos adequamos de qualquer jeito a loucura dos ponteiros que se precipitam em horas demoradas e quando os olhos se acostumam a paisagem é quase dezembro outra vez e já é hora de se perguntar outra vez “o que vai fazer nos próximos 365 dias do novo ano que se inicia? A esperança reacende e a resposta se precipita de maneira natural e as promessas são as mesmas de antes: levar a sério a academia, trabalhar menos, se divertir mais, começar aquele curso de artes que você se promete há tempos… O fato é que as promessas são as mesmas e na maioria da vezes, ficam esquecidas no fundo de alguma gaveta mental, sem acesso algum.![]()
Velhos hábitos
O fato é que mesmo sem perceber, todo dia fazemos (quase) tudo sempre igual. Muitos dos nossos comportamentos não passam de hábitos; hábitos esses, aliás, que dão muito trabalho mudar. Mas não é impossível conseguir alterar suas atitudes rotineiras que levam a criação de hábitos que inicialmente podem parecer inalteráveis. Basta dar o primeiro passo que as vezes, pode ser muito mais simples do que se imagina. Não deixa o que pode ser feito hoje para fazer amanhã; evite promessas, pensamentos que ultrapassem as fronteiras do infinito e que te leve de encontro a um tempo que não se adéqua aos seus passos.
Além da nobre arte de fazer coisas, existe a nobre arte de deixar coisas sem fazer. A sabedoria da vida consiste em eliminar o que não é essencial
(Lin Yutang, escritor chinês)
Poderia parar de escrever por aqui, mas vou além da síntese da frase acima e se menefregar pode ser uma arte em nossa vida, mas me ocorre perguntar: Como andam os seus objetivos de vida, sua espiritualidade, filosofia de vida, lazer, vida amorosa, sexual e amizades? A dinâmica da vida facilita as nossas ações, mas os bloqueios psíquicos diminuem as nossas potencialidades.
Os astrólogos para saberem a dinâmica da vida de uma pessoa, fotografam o céu no instante de seu nascimento e depois produzem um mapa, chamado astral. Você quando não entende nada sobre o assunto e tratar o resultado como adivinhações, mas para quem crê, as informações são direcionadas e interpretadas de maneira a resultar em realizações.
As dinâmicas do nosso inconsciente tanto podem nos sabotar como podem ajudar para prosperar a nossa felicidade. A maneira como nos relacionamos com as pessoas, tanto em grupos sociais ou de trabalho, também dizem muito sobre como decodificamos a educação que tivemos ou a nossa herança cármica – não importa em que você acredita – as coisas simplesmente acontecem se você cumpre a sua missão pessoal.
Você não precisa de planos mirabolantes ou mesmo se reinventar, apenas agir de modo a deixar que portas sejam criadas, que você viva e crie experiências novas, respondendo basicamente as perguntas: Que impacto você quer ter para si, que lembranças você quer construir? Afinal, se você precisa de um plano para construir uma casa, precisa de planos para construir sua vida ou perseguir um objetivo. Se você não sabe o que quer ou não tem objetivos na vida, preencha o seu tempo com pensamentos e ações para alavancar esse processo de encontro com a sua satisfação. Neste sentido, uma lista seria viável para você consultar o ano todo, para conferir se está se esforçando. Luma do blog luzdeluma.
Metas estabelecidas
Promessas cumpridas
Em 2008, a americana Nina Sankovitch prometeu a si mesma ler um livro por dia; mas para evitar que sua promessa fosse apenas mais uma na lista de promessas feitas ao longo de sua vida, ela estabeleceu uma meta: ela se obrigou a escrever uma resenha de cada um dos 365 títulos lidos em seu blog (www.readallday.org). De Saramago a Paul Auster – Nina conclui sua promessa em outubro de 2009. Satisfação garantida “tive receio inicialmente de não levar minha promessa adiante, mas a cada resenha publicada em meu livro, eu era tomada por uma nova motivação e isso me ajudou a concluir meus objetivos” – conta. A relação de livros lidos por ela pode ser encontrada em sua página (http://www.readallday.org/about_365.html) onde ela também dá dicas sobre como ler um livro por dia.
Um grupo de profissionais criou a “teoria da diversão” para mostrar que transformar algumas atitudes pode ser perfeitamente possível quando mudamos o sentido dessa transformação ou motivamos nosso cérebro a perceber outras cores, substâncias e elementos vários.
Uma campanha publicitária desenvolvida para a montadora alemã Volkswagen, propõe tornar nossa vida mais sustentável com adaptações agradáveis, como por exemplo transformar a escada de uma estação de metrô de Odenplan em Estocolmo, onde a maioria das pessoas optavam por usar a escada rolando, como fazemos diariamente: transformaram cada degrau da escada convencional em uma tecla de piano e à medida que se pisa, o degrau solta uma nota musical. O fluxo de passos por ali aumentou consideravelmente e a escada rolante deixou de ser o atrativo habitual que era antes. A sensação de “conforto” foi substituído pela sensação de prazer.
O vídeo disponibilizado no site da campanha (www.thefuntheory.org)e no you tube lembra um pouco o filme “Quero ser Grande” com Tom Hanks que está andando por uma loja de brinquedo e se diverte com um piano montado no chão da própria loja. A cena considerada com inesquecível pode bem ter inspirado os autores da escada de Estocolmo.
Mas a campanha não parou por aí; foi lançado um concurso visando premiar outras idéias tão criativas e divertidas quanto essa.
Uma das idéias premiadas foi a lixeira sonora que emite um som agradável quando o lixo é colocado dentro dela. Instalada na Europa fez mudar hábitos desagradáveis de pessoas que mesmo tendo a lixeira a disposição, evitavam usá-la. O efeito sonoro de algo caindo num abismo profundo despertou curiosidade de quem passava pelo local e logo, o lixo espalhado ao redor da lixeira foi parar no interior dela. Idéia essa que talvez ajudasse a deixar a cidade de São Paulo mais limpa.
O fato é que promessas não produzem o resultado esperado, mas a mudança de hábito sim e basta encontramos um jeito de tornar tudo agradável para a nossa mente e para o nosso corpo e pronto: teremos objetivos rápidos e agradáveis.
Não podemos nos prender as rotinas e deixar que elas nos controle. É preciso mudar hábitos, sejam antigos ou recentes. Impor uma disciplina natural, menos cansativa. Não nos obrigar a nada e evitar as promessas a longo prazo. Escolha coisas breves; comece ainda hoje, ao levantar da cama, diga a si mesma “hoje eu vou ler um poema” e faça. A satisfação por ter conseguido concluir seu objetivo ao longo do dia servirá de motivação para todo o resto: novas cores, nova sensações, novo conforto e o mais importante: ânimo renovado.
Afinal, a vida está onde pulsa e nem sempre esse pulsar esta onde prevíamos ou imaginávamos. O ato de viver está diretamente associado ao ato de transformar que exige de você uma dedicação imparcial. Você escolhe se dá o primeiro passo ou se fica no lugar onde está e no final (que pode ser do ano ou não) você descobre há mais motivos para sorrir ou chorar.
Porque a vida segue seu curso, indiferente em relação ao que você quer ou deixa de querer. Ela não se modifica em função da pessoa – somos nós quem devemos modificá-la em função de nós mesmos.
Aqui no bairro onde eu moro há uma senhora de uns setenta anos que não se convencia da necessidade de reciclar o lixo. A coleta feita as quintas era uma bobagem até que a neta, uma menina de quatro anos a repreendeu com seus pequenos braços cruzado a frente do corpo e bico nos lábios “vovó, você está me negando o direito de ter um planeta melhor”. Desde então ela separa o lixo e coloca-o no portão de casa as quintas. A vida é isso: um conjunto de perspectivas com seus sons e cores.
Conto.
“Ah, ela hoje queria dançar na agudeza das coisas,
seguramente decompor o universo para melhor
senti-lo. E assim, tropeçou nos epítetos”.
Paloma Mariano
Ela estava em casa e de repente se viu sozinha com a canção que não parava de tocar. Era a mesma há horas. A garrafa de vinho solitária e vazia num canto da mesa contracenava com a taça pela metade e com o rosto entristecido, sem lágrimas, sem expressões que definissem possíveis sentimentos…
As vezes ela buscava o ar do fundo como forma de sobrevivência. Prestava atenção na canção e sabia que algo estava sendo esquecido ou lembrado naquele instante. Quem sabe? Ela de fato já não sabia de mais nada.
No quarto ao lado, o homem dos seus sonhos mantinha seu maldito silencio habitual. Eles se falavam sempre. Os assuntos variavam conforme o dia, conforme o instante. Só não falavam de si mesmos – para os olhos do mundo a perfeição era sinônimo deles. Mas a inquietação na pele dela deixava bem claro que a perfeição habitava outros mares por onde seu barco não navegava.
Havia silencio demais naquelas laterais. Ela queria uma explosão momentânea, algo que a fizesse sentir viva. Estava exausta. Queria o inusitado, o desconhecido. A aceleração. A tempestade de uma paixão…
Mas suas veias meditavam diferentes formas de silencio, era um vulcão adormecido. Sua pele adormecia há anos o mesmo sono. E seus olhos se fechavam diante da paisagem serena de mais um fim de noite, onde um filme a fazia mordiscar os lábios e a delirar com mãos quentes percorrendo sua pele, arrancando-a de si, lhe apresentado figuras e formas, cores e sons – ela conhecia o amor em todas as suas belas formas como ninguém, mas era só o que conhecia e de repente já parecia não ser mais o suficiente como era antes!
Na manhã seguinte, ela despertou cansada. Lamentou estar acordada. Verificou as horas. Ouviu o barulho do chuveiro e sentiu-se aliviada por estar as sós entre os lençóis. Por um pequeno instante se entregou a desbravar seus infortúnios – foi quando sentiu o vento que surgia da janela aberta. A pele nua, rosácea arrepiou-se.
Um rompante lento a levou até a sacada. Eles moravam no penúltimo andar. Ela abriu os braços para a cidade, fechou os olhos para o mundo e respirou fundo todos os seus desejos e ilusões – enquanto lágrimas percorriam a pele: seu último delírio tinha asas e cheirava a liberdade…
Por Lunna Guedes.
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Fecha Aspas.
Agradecemos a todos que participaram desse projeto ao longo de suas quatro edições. Com certeza essa Revista não será o sucesso que é sem a participação de vocês.
Com toda certeza nos encontramos em breve com mais idéias e propostas. Sejam felizes…
