“Outros Tempos”

Março 1, 2008 at 8:16 am (Contos, Literatura, Poemas, Poesias, crônicas) (, , , , , , , , )

relogio
Relógios. Dwight Yoakam

As pessoas geralmente não gostam nada de ouvir o “tic-tac” dos relógios - há alguma forma de aflição inseridas nesse som que se manifesta nas paredes, nas pirâmides, nas torres…

Dizem “Que droga de tempo” “por que não param esses malditos ponteiros?” E há aqueles insanos que querem silenciar as badaladas com almofadas ou numa doce brincadeira de esconde e esconde - lá se vão os pobres coitados para dentro das gavetas. E nem assim eles silenciam…

Mas há em nós mesmos uma outra forma de marcha - de passo feito ponteiro - que nos remete a uma outra forma de tempo e essa nos remete a uma estranha indagação - vez ou outra “Que diria o tempo de nós se tivessem possibilidade?”

Coletânea Artesanal - Ano I - Edição n° 12
Edição. Letícia Coelho e Lunna Guedes

 

I – Janela Aberta.
Outros Tempos fala um pouco dessa sensação que vez ou outra me veste, a sensação de não fazer parte de nada ou de coisa alguma. De estar no momento errado… Ou de estar agarrada as muitas formas de saudade que trago em mim.

… até que aquelas palavras se instalaram como uma permanente
e indissolúvel mancha nos dias sempre tão azuis, tão azuis.
A partir de então, a felicidade jamais a acometia imaculada
todos os seus matizes. (…)

*****

O tempo e sua breve meditação…Sentada na varanda de casa, bem no fundo do quintal, ao lado de uma linda árvore perfumada, onde costumo ficar quando o céu anuncia a chuva, comecei a ver o tempo.Não vê-lo como o tempo da previsão, se chove ou não chove!
Mas olhá-lo no seu todo, no seu conteúdo, enquanto ciência, enquanto folha que caí e se perde porque viu chegar o fim as suas partículas…

Confesso que não é nada fácil.
Esse tempo que ocupa ponteiros, um espaço que não gostamos de permitir… Enfim, o tempo como sabemos, ou como pensamos que sabemos… Esse tempo, que nos apresenta a ingratidão em forma de rugas, em forma de arrependimentos tardios ou lamentações que causam mau estar no estômago…

Os homens, num momento de grande insensatez, resolveram mexer com ele. Fizeram isso. Primeiro ao inventar as medidas para ele: dias de 24 horas, semanas, meses, anos, séculos, milênios. Não satisfeitos, inventaram o pêndulo, daí para o relógio propriamente dito, foi um passo. E foi assim, que descobriu-se que nos movemos como ponteiros e somos deles, reféns, escravos de certa forma.

Desse mesmo tempo, que sempre existiu, mas nunca tinha sido medido ou notado…
Estava lá, dormindo seu sono tranqüilo e alguém o ousou despertar… Não sabemos porque foram faze-lo, apenas que o fizeram!!!

Conta-nos a lenda que os inventores do relógio foram os alemães. “Gênios”. Mas o tempo, ao qual me referia inicialmente, é outro. É o tempo das lembranças, das felicidades, das alegrias, dores e traições. Tempo das pescarias, das viagens, das danças. Dos amigos colegiais, das fotografias, das folhas que ficaram na última estação, das folhas em branco que ganharam palavras na última madrugada…

Tempos outros, de belas moças circulando por calçadas iluminadas a lampiões de gás… Luas que nossos pés não alcançavam, apenas os olhos enamorados…

O tempo que eu estava olhando da varanda, é seguramente aquele tempo sem medidas e sem freios, sem censuras e sem rodeios, sem máculas e sem cobranças. Era apenas um tempo de viver… Onde o despertar era como um sopro silencioso do vento agitando as folhas da jabuticabeira (a tal árvore cheirosa que parece pressentir no ar o cheiro da chuva, tanto quanto eu…).

E um sorriso descobri em minha face tão logo começou a chuva… Havia escurecido e a tarde ficara para trás… Os ponteiros do relógio não se moveram e o meu silencio intenso ficou no último badalar que se ocoou pela casa e não me alcançou…

Percebi que a filosofia das horas, dos dias, dos instantes não me alcançavam mais… Apenas a saudade de quem percorreu ruas antigas, lugares velhos e paisagens que já não existem mais - mas que habita em mim e para isso, o tempo é um mero detalhe e nem sabe ao certo se vai ou vem, quem sabe até se já foi…

Lunna Guedes
Blog. Acqua

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Pipocas, garoa & cinema matinê
 
Tudo aconteceu no paulistano bairro do Brás onde nasci e vivi minha primeira infância – bairro de imigrantes peninsulares – que se estabeleceram naquela região entre os anos 50 e 60. Havia uma varanda no apartamento que dava para os fundos do prédio, de onde podia-se vislumbrar poucas árvores nas ruas paralelas e algumas chaminés que soltavam fumaça branca… Aos meus 5 ou 6 anos eu achava aquilo bonito! Meus pais, imigrantes espanhóis, diziam que aquilo era a tal poluição que fazia mal à saúde.

- E daí? Pensava eu! A fumacinha é tão bonita… Enquanto os gerânios de minha mãe floresciam em seus tons róseos e vermelhos para colorir a varanda e nos mostrar que eram um pedacinho de floresta sobrevivente daquele bairro de duas faces: familiar & industrializado!

Em um dia de abril as chaminés do Brás pareciam adormecidas… Por isso, quando minha mãe disse que íamos ao cinema, algo muito forte despontou em mim e em meu irmão: a curiosidade e a alegria em conhecer as matinês do cinema! O desenho animado que veríamos era “Bambi”, de Walt Disney. Algo que nos levou às lágrimas, porque tínhamos uma vida difícil e o cinema se parecia a um prêmio pela nossa persistência em subsistir.

O tal de cinema de bairro tinha aparência de uma caixa feia e cinzenta, apenas animado pelos cartazes dos filmes em exibição, mas como ainda não sabia ler direito aos cinco anos, não sei dizer como se chamava. A garoinha fria daquela sessão de matinê nos fez entrar logo, acompanhados por um lanterninha pela enorme sala escura, onde descobrimos um lugar encantado.

Carregávamos um saquinho de pipocas feitas com óleo, comprado do carrinho em frente ao cinema, que teríamos que dividir entre os dois irmãos. No entanto, aquilo não importava, porque a única coisa que valia naquele momento mágico era a tela imensa de onde começou a surgir desenho após desenho, um mundo fantástico governado pela bicharada de Walt Disney e a comovente história de “Bambi”, que se perdera na floresta. Em uma determinada parte do desenho tocaram uma das canções mais lindas que existe: “Pinga, pinga chuvinha, pinga, pinga chuvinha de abril (…) quando o inocente veadinho foi surpreendido pela chuva na mata… Onde não havia poluição, e foi ai que eu percebi que a beleza da floresta suplantava a fumacinha das chaminés, que a garoa dos anos 70 tentava em vão aplacar.

Minha primeira sessão de cinema matinê teve gosto de pipoca feita com óleo e orquestrada por uma doce chuva musical, onde a bicharada de Disney mostrou-me os primeiros segredos do mundo da fantasia. Até hoje o cinema tem esse gosto…
 
Da série: Crônicas & Verduras

Madalena Barranco. Escreve prosa & poesia, temperadas com fantasia e está sempre em busca do legítimo gênero “histórias de fadas”, segundo a definição de J.R.R.Tolkien, que reza sobre a necessidade de sonhar para todas as pessoas de todas as idades. Publica em seu blog http://morango.blogsite.org, http://imaginario.blogsite.org e http://fantasia.blogsite.org.
 

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Há tempo!…


Ah, Tempo!
Um ano se passou e eu não contei às noites, as luas
Não contei palavras ditas
Não contei as desditas vividas
Um ano passou e não contei a ninguém
Os dias, as horas, os sorrisos
Nem das estações lembrei.
Vi apenas à chegada de novembro,
O céu escuro, chuva anunciada.

Ah, tempo amigo!
Porque não se sentou comigo?
Porque insistiu em andar, quando queria eu sentar?
Porque passou, quando eu queria esperar outro tempo passar?
Porque não me deixou por dois ou seis segundos?
Prometi continuar com as rugas, idéias e fazeres
Prometi não buscar outros prazeres que me levem a morte
Prometi não pedir sorte, saúde ou prorrogação.

Tempo amigo
Deixa eu voltar ao colo
Antes que chegue o solo
Antes que seja outro o tom, o tempo
Antes que essa música chegue ao fim
Deixa!…
Há tempo, amigo…
 

Wadson Fernandes
Blog. Lua na Montanha

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OUTROS TEMPOS OU OUTRO MUNDO?
 
Passava ontem pela rua em que moram meus primos, não digo onde para que ninguém se sinta tentado a ir visitá-los e perguntarem sobre mim, como sou, se sou assim mesmo, se sou bonito ou feio, ou sabe-se lá o que mais.
 
Caminhava e lembrava como era aquilo lá.
 
Era uma  festa para um moleque como eu ir à casa de meus tios. Morava em cidade onde as ruas eram asfaltadas, tinha grandes casas de alvenaria e já alguns prédios de três ou quatro andares, e lá onde moravam meus tios e primos, as ruas eram de terra e, criança é mesmo besta, ainda tinham valas.
 
Que alegria a nossa!
 
Ficávamos a tarde inteira nos sujando na rua, entrando nas valas para catar girinos, puxando sujeiras de dentro d’água.
 
Quando voltamos para dentro, era hora de tomar café, qual o horror dos nossos pais ao nos verem sujos, com os pés encharcados de lama, e fedendo, fedendo…
 
Hoje aquilo lá é mais uma rua, uma rua  dessas qualquer, de qualquer cidade, sem encanto nenhum, sem nada de deixe qualquer marca de saudade.
 
Nas ruas daquele tempo, outros tempos, a iluminação pública deixava muito a desejar, mas brincávamos nelas sem perigos outro que cortar um dedo, pisar num prego, cair duma árvore, aliás, alguém tem visto criança subindo em árvores ultimamente?, queimar um dedo fazendo fogueiras nas noites frias de junho e julho, aliás 2, nem frio faz mais no inverno.Sem contar que tínhamos árvores, muitas árvores, goiabeiras, caramboleiras, ameixeiras, jaqueiras…
 
E hoje?
 
Arrancam tudo para que as folhas não sujem o chão! Tsc, tsc, tsc…
 
Já que é para apertar os miolos atrás de velhas lembranças, alguém tem visto pessoas sentadas nas portas de casa conversando com vizinhos? Cumprimentando os passantes?
 
Não.
 
Essas ruas não existem mais…
 
Não sou um saudosista xiita, mas noutros tempos, tempos de minha infância as coisas eram bem melhores. Perdíamos feio na qualidade tecnológica, mas a qualidade de vida realmente era bem outra. Tive uma infância de criança pobre, mas posso lhes garantir que era uma pobreza muito menos miserável que a que vivemos hoje…
Outros tempos ou outro mundo?
 
Quando criança, com os meus colegas, fazia planos de no ano 2000 ir á Lua, ir a Marte, e vejam só, não temos nem mais trens, estradas destruídas, aviões caindo…
 
O futuro daquele tempo era muito melhor. Seriam outros tempos ou eu sou outra pessoa?
 
Sei lá, até as dúvidas que me assolam hoje são piores…

Roberto Prado de Barbosa Junior
Idade: (desgraçadamente) 47 (uma injustiça!)
Já tenho publicado um livro de contos chamado GRINGA & OUTRAS HISTÓRIA. Moro em São Vicente, mas gosto de dizer que vivo em Santos, terra em que nasci, trabalho e passeio. Escrevo desde a adolescência.  E perpetro contos e crônicas em meu blog http://blogdonemesis.blogspot.com/

 

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Poesia

Resta a lembrança…
Lamúria constante…
Dos desacostumados do progresso…
E regresso,
Pois sou esquecida…
De esquecer do que já passou,
Lamento os anos que passam voando…
E resta sempre a saudade…
Do tempo que já se foi.

Havia o tempo…
Que o futuro era incerto…
…as bonecas espalhadas no chão…
O silêncio descoberto…
Cresci perdida…
Em meio às tempestades da vida…
Sem saber o lado correto!
Aqueles tempos…
Que tudo era possível…
Mas me cansava…
Pois não passava…
O corpo não mudava…
A pele era clara…
…e eu deitava na sala…
Esperando a tarde passar.
Queria crescer…
E exorcizar…
As palavras não ditas…
As lembranças aflitas…
Queria morar sozinha…
Viver a vida minha,
Sem me preocupar…
Com os outros tempos,
Da vida difícil…
Dos traumas juvenis…
…hoje me encontro aqui…
Sem talvez estar…
Lembrando dos outros tempos…
Que fico a guardar…
Quero ter quatro anos de novo…
E saber aproveitar!

Não tenho saudades…
Do curto tempo que ocupastes…
Nada especial,
Coisas passageiras,
Eventuais.
Magoaste – me…
Queria que soubesses…
Mas te trato com um sapato…
Fora de moda, lógico…
Daqueles que deixo no armário…
Para doar aos necessitados.
Um dia achei que fosse pouco para ti…
Hoje percebo…
Que sempre fui mais…
Do que tu poderias agüentar…
Oferto – te então para os moribundos…
Eles irão alimentar…
Farão teu ego inflar!

- Autoria. Leticia Coelho
Blog. Esperas
 

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Outros tempos
 
Em outros tempos sabíamos mais de menos, e sabíamos tudo que havia para saber. Sabíamos inclusive que o respeito ao próximo tinha valor entre uma comunidade. Eram tempos das vacas gordas e sem febre aftosa, do dinheiro no bolso e não no banco. Nesses velhos tempos conhecíamos a dia-a-dia de nossos vizinhos e conhecíamos também o dono do boteco pelo primeiro nome. Havia algo dentro do ser humano que hoje falta em sobra. Os políticos sempre foram os ‘políticos’, mas hoje eles são menos que isso: são caricaturas! Era o tempo de nossos avós o melhor tempo que um dia houve. Em outros tempos éramos quase todos cigarras, hoje somos apenas formigas. Somos massacrados pelo capitalismo selvagem, pela ganância, pela falta de lei e de ordem. Houve muito progresso tecnológico, industrial, cultural… Só não houve progresso ético. Em outros tempos sabíamos da vida do outro pelo olhar da janela. Não éramos dessecados pela mídia como ratos de laboratório (perdendo cada dia mais o valor moral de nossa pessoa). O tempo não escorria pelos vãos das mãos, os poetas podiam sentar no bar da esquina e declamar suas poesias porque o bandido era o ladrão de galinhas e não de almas. Não vivi este tempo, mas tenho saudade como se necessário fosse dispor dele para salvar-me e salvar a todos dos dias atuais. 

Alexandre Costa
Blog. Fábrica de Histórias 
 
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II – Formas de Ponteiro
Na viajem dos tempos… Tropeço nos ponteiros… Escalo os minutos… Corro pelos segundos…
Dou a volta ao mundo, paraliso os ponteiros.
Sigo a eterna dança, dessa vida de andanças - entregue ao meu próprio tempo!
Dou um tapa nos ponteiros e revejo outros tempos… Sorrio e vejo que fui eu quem fez o meu próprio tempo!

Autoria. Letícia Coelho

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Só, caminho II

Assombrado, pelo reflexo,
vejo as rugas, a face marcada,
cicatrizes de lutas perdidas.

Na vereda, cercas-vivas,
de folhas mortas,
que amortecem o pesar
do pesado passo.

Outros tempos, outro mundo,
alcançado pela tempestade,
vomito as lembranças,
leva, a água, as saudades.

Só, permaneço,
de alma lavada.

Só, caminho

Entre tantas memórias
teimosas
a tua é que ficou,
caminho por estradas bifurcadas,
cercado pelos bambuzais,
o som melancólico,
da árida brisa.

O caminho, sem fim,
sem pouso tranquilo,
o faço
amparado por bengalas,
esperança e saudade.

Mas só resta a dor perene do fardo,
que nos ombros lanhados,
queima,
não cicatriza.

Ricardo Rayol
Blog. A cor da Letra

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Epitáfio


Na minha tranqüilidade tranqüila, esperava a oportunidade certa de chegar ao outro lado da rua. Pois então, meu bem, lembrei-me de você. Enquanto tragado pela escuridão do universo, lembrei-me de você.
É que veio um carro. Dentre tantas possibilidades, dentre tantas incertezas, quis Deus que viesse um carro. Deus, meu amor, não é injusto. Deus é a obrigação de alargar minhas margens íntimas.
Era escuro. Era um carro que anunciava o meu destino no aspecto morto de sua cor. Primeiramente, vi um obstáculo ao meu desejo de chegar ao outro lado da rua. O carro foi chegando mais perto, tudo começou a entortar. Pensei que seria assaltado. Justo naquele dia em que eu nada trazia nas mãos, uma necessidade cruzava meu caminho… Mas, subitamente, a rua tornara-se tão torta, que dois planos, o do asfalto e da minha calçada-do-meio, se entrelaçaram: o carro subia na calçada.
Ah, meu amor, lembrei-me de você. Lembrei-me de nossa última briga. Você estava atrasado para seu compromisso, eu estava preocupado com a minha reunião no escritório. Estávamos submergindo no meio de um turbilhão, só porque queríamos garantir mais tempo e mais espaço – e mesmo o pequeno segundo e o cubículo nosso não soubemos aproveitar.
Lembrei-me também que eu tinha esquecido nossos ternos na lavanderia e que no dia seguinte havia o baile de formatura da sua tia Cleonice, ela estava se formando em Letras. Era como se fosse uma conquista nossa.
Segundo o machismo do marido, mulher tinha que cuidar da casa. Mas ele, após beber, espancara Cleonice. Você foi até a casa dela, buscar a chave de nossa casa esquecida lá e ouvira os gritos.
Levamo-na à delegacia, fez-se o boletim de ocorrência. Depois disso, ela aceitou que a abrigássemos em nossa casa. Três anos depois, após completar os estudos interrompidos, ela fez o vestibular para Letras. Ansiamos junto com ela o ingresso na faculdade. Agora, vê-la professora de Literatura é gratificante.
Ah, meu amor, é amanhã a formatura. Mas esse carro ingrato está cada vez mais próximo de mim e eu ainda não consegui esboçar uma reação. Será que Deus me privaria de gozar da vitória de tia Cleonice, que também era nossa vitória? Tantas lutas, e é este o prêmio, o metal de um carro escuro?
Tantas lutas… Lembra-se da nossa luta conjunta, por sermos diferentes? Lembra que minha mãe queria que eu me casasse com uma mulher e que eu continuasse a família? Seu pai já tentou me matar, mas eu consigo entender. Certas coisas não se escolhem, não é? Já dizia uma escritora famosa que “numa terra de morenos, ser ruivo é uma revolta involuntária”.
Ah, meu amor. Que espaço é esse que ainda existe entre eu e o carro que tenta me matar? Sempre odiei esperar por momentos ruins. Mas antes, meu amor, eu lembrei uma última coisa, a mais importante.
Dizem que cuidar dos outros é se eternizar. Lembro agora porque nos unimos, porque havíamos decidido morar juntos: queríamos uma filha. Fomos ao orfanato, e naquele dia nosso caminho pareceu coroado de flores. Adotamos uma menina, e dois meses depois nossa Débora estava no berço. Hoje, ela tem 5 anos e daqui a um mês é a sua formatura de alfabetização. Mas será que até esse gozo me será privado?
Ainda persiste um espaço inacreditável entre eu e o metal de morte. Agora fechei os olhos e não sei se isso é covardia ou mais coragem. O carro é frio, meu amor, e eu estou me sentindo confortavelmente morno pelo calor de seu corpo. O carro é morte, meu amor – e estou me lembrando do que tem vida na minha vida. Ou do que fez valer a pena essa trajetória, selada pela batida de um carro.
O que vai acontecer, meu benzinho? Tenho medo, segura minha mão? Se eu morrer mesmo, peça perdão a tia Cleonice por não termos ido à formatura dela – Deus sabe o quanto quis estar lá. Se eu morrer mesmo, diga a Debinha, que eu não sei se o mundo é bom, mas que ficou melhor depois que ela chegou. Se eu morrer mesmo, meu amor, continue nossos sonhos. Se eu morrer mesmo, sinta-se beijado – sinta a força do que construímos ao longo desses anos difíceis.
Adeus, talvez. (Qual o buraco que ainda se preserva entre eu e o carro que já subiu na calçada? Esse metal voraz).

Yuri Assis
Blog. Blog. Café e pão e Espelho d´Água

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Tempos idos


Era puro o dia
Quando a gente se via
E fosse mágoa ou alegria
Ninguém as escondia
Eram memoráveis esses dias…
As manhãs tinham magia
A barba não crescia
E a coluna não doía
O gesto que se fazia
Era de uma simpatia…
O povo passava e sorria
E todos diziam: bom dia
Serão sempre meus esses dias
Mas eu quis, com certa ironia,
Sem muita pompa, só simpatia,
Desnudá-los nesta poesia

- Manoel Gonçalves
Blog. Coisas de Manogon

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apologia

Arte: Branco Seixas.

APOLOGIA DE UM SENTIMENTO

Eu não faço apologia do que sinto
apenas escrevo, em linhas tortas o que penso.
Esse sentimento, não divido com ninguém:
duvido de todos e de mim mesmo
e se te disser que eu não ligo,
minto; mas também não minto muito bem.

Também sei que o ódio pereceu, ontem à tarde,
mas ainda quero te esquecer pela manhã.
Sai de mim, sai da minha vida,
sai da minha alma e da minha bebida
que eu nunca mais quero provar do teu afã.

E que me perdoem os moderninhos e modernistas
mas adoro essas rimas imprevistas,
indecisas,
intensas,
imensas,
Imprecisas,
de sons indeléveis e inefáveis,
rimas cruas, palavras nuas
a estilhaçar meus sentimentos frágeis.

Não, eu não faço apologia do que sinto,
apenas desse sentimento que eu invento:
é assim que largo o tosco verbo amar ao vento,
é assim então, que em vão eu tento te esquecer…
 
 
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apologia

A MENINA QUE FAZIA CHOVER

Dizem que nasceu em dia de tempestade. Não se sabe ao certo se a chuva veio por causa dela ou se ela veio por causa da chuva, sabe-se apenas que trazia a chuva no olhar. Desde pequena, tornou-se notória entre os mais chegados: todas as vezes que colocava os pés para fora de casa, um aguaceiro desabava sobre a cidade.
No princípio era divertido, sentia-se especial, diferente das outras meninas. Com o passar do tempo, percebeu que as pessoas a olhavam de uma forma estranha e se afastavam apressadas tão logo ela se aproximava. Logo, não restaram mais amigos. Era o início da sua solidão.
Vez por outra, sua mãe a levava para dar um passeio na praia, sempre com um guarda-chuva à mão. Ela andava pelo calçadão deserto, e tentava imaginar como seria num domingo de verão, com as pessoas se divertindo, felizes… Ficava a contemplar o mar, em meio ao aguaceiro e sentia-se deprimida em saber que nunca seria igual as outras pessoas. Ela nunca viveria a felicidade de um dia de sol.
Foi crescendo, cada vez mais pálida, vendo o sol pela janela do seu quarto, mas sem nunca poder senti-lo na pele. Em sua cabeça, fantasiava um romance entre o sol e a lua, onde um jamais encontraria com o outro, a não ser por poucos momentos, no entardecer ou no amanhecer do dia.
Tentou descobrir o que acontecia com ela. Pesquisou em livros, na internet e onde mais pudesse ser encontrada uma resposta para essa anomalia inexplicável, tudo em vão. Não conseguiu a menor pista que ajudasse a desvendar o mistério que era sua vida. Ela era única, e nada poderia modificar isso.
Um dia, cansada de ficar em casa, resolveu sair. Sua amiga inseparável, a chuva, a recebeu logo que chegou ao portão. Não levou guarda-chuva, tampouco avisou sua mãe. Simplesmente foi andando a esmo, pelas ruas vazias da cidade, e quando deu por si estava sentada em um banco, em frente ao mar. Não havia ninguém à vista, a chuva agora caía aos borbotões, e ela, apesar de totalmente encharcada, sentia seu corpo quente como nunca antes sentira. Tirou os sapatos e caminhou devagarinho pela areia molhada. Chegou na beira do mar, a água estava morna, a chuva agora lhe parecia reconfortante. Entrou um pouco mais na água, achando maravilhosa aquela sensação de ser abraçada pelo imenso oceano e nem percebeu que a correnteza furiosa a puxava cada vez mais para longe da areia.
Foi encontrada três dias depois, por pescadores, boiando de olhos abertos para o céu azul. Mesmo com o corpo inchado, podia-se perceber um claro sorriso em seu rosto pálido.
Fazia um lindo e ensolarado dia de outono.
 
 
Fodo Oliveira mora no Rio de Janeiro, é comerciário e estudante de Letras da Faculdade Simonsen. EM 2007 publicou o conto MORRER DE AMOR na antologia Noctâmbulos, da Editora Andross, e no início de 2008 seu primeiro livro solo, EXTREMA PERFEIÇÃO, pela Editora Corifeu. Escreve no blog http://frodooliveira.zip.net e no site http://recantodasletras.uol.com.br/autores/frodooliveira
 

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MARCAS

A menina cobre seu rosto
De sujeira, de vergonha, de medo
De incerteza no dia seguinte
Aprende a se virar desde cedo
Rotina sem nenhum requinte
Nada que pareça errado
Apenas um grave pecado
O fato de ter nascido
A menina cobre seu sorriso
Suas bonecas são trapos
Pedaços de madeira e panos rotos
Sua brincadeira é rir dos outros
Um riso nervoso e amedrontado
Que transpassa pelo vidro
E assusta quem está do outro lado
A menina cobre sua boca
Não sorri a boca banguela
Não mostra sua graça
E descalça, desnuda,
Desequilibrada
Troca um falso carinho
Pela proteção agressiva
De loucos e preguiçosos padrinhos
A menina cobre a si mesma
E de repente repete a sina
De tantas outras meninas
Perdidas, pedintes, pedantes
Encobrindo um corpo frágil
De malícia e jeito fútil
De pedidos no farol
De farrapos maltrapilhos
Maltratados, mal trajados
O rosto esturricado do sol
A sujeira lavada na chuva
São lágrimas
São lástimas
São gotas de suor
Que escorrem pelo rosto
E levam no sal sujo
A amargura e o mau gosto
Da vida que lhes é impelida
E a muito contragosto, engolida.

- Manoel Gonçalves
Blog. Coisas de Manogon

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III -  Outros Olhares
O que me alegra e entristece é saber que a marcha é uma só - amanhece primeiro (sempre) e depois seguem os rumores das horas em passos e pressas que não me alcançam mais. Não depois de tanto tempo. É como se eu estivesse no meio do nada, cruzamento da São Luiz com a Consolação - lendo Neruda, vestindo camisa larga. Tudo parado - o transito e eu…
E sigo o andor…mas as horas não me atingem, não me buscam…quando é dia, vivo a noite…e da noite faço dia, troco as horas, vivo a vida…traço minhas próprias linhas. Leio Nietzsch no escuro…Confesso…Meio maluco, mas paro enquanto posso, e vivo meu tempo sem correr pelo mundo.

Autoria. Lunna Guedes e Letícia Coelho

Quando a morte
…cantar sua última batalha
Deixarei nos lábios um sorriso
…e na pele – uma saudade!
Não sei quem a vestirá
Ou se haverá quem se preste a tal sina!
Então marcharei pelos campos de corpos sem vida
…e seus túmulos desprezíveis!
Seguirei em frente,
…certa de que essa vida não será minha!
Mostrarei minha indiferença aos portais de crenças malditas
…e estarei sozinha e livre
Feito o vôo do pássaro
A quem destino minha última prece!

Lunna Guedes
Blog. Acqua

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No fim do túnel


Está vendo aquele túnel ali na frente? O túnel que ali se apresenta não é só armação de concreto e forma de se passar pela montanha. Ele é um marco. Por quantas estradas rodei antes de chegar aqui. Já nem sei. Já não importa. Não tem mais importância se eram esburacadas e com curvas acentuadas ou com seus asfaltos recapeados e boa sinalização. O importante agora é o túnel. Não importa se há iluminação nele ou o lodo decorrente da umidade nas paredes já se acumula em camadas. O que vale é a viagem que por ele farei e como chegarei do outro lado. Engraçado como nunca o percebi antes. Acho que ele já existia, mas nunca dei atenção. Acho que não era o momento de tentar transpô-lo. Sua forma é rústica e se confunde com a paisagem, mas isso não me interessa. O interessante é que além dele está a esperança. Luz no fim do túnel? Ah, que luz o quê! Ao final daquele túnel não há só a luz. Não a ignoro, pois ela banha meu corpo e o sol me aquece e me enche de alegria, lembrando que o sangue que pulsa em mim também é quente. Além daquelas paredes fúnebres está o recomeço, o inesperado, a mágica de não saber o que há exatamente depois delas. Não sei realmente o que há depois do túnel. Talvez a mesma paisagem que povoa as minhas lembranças, mas também possa haver a famosa “estrada de tijolos amarelos” que me leve ao meu paraíso, ao meu canto de sossego, meu oásis particular. Sei que isso pode soar estranho e que vão dizer que sou uma moça muito confusa ou que, no mínimo, estou drogada e fora do meu juízo. Mas, sinceramente, isso não me afeta. Quantas vezes eu deixei de pensar por mim mesma para que ficasse politicamente correta e de acordo com as normas da sociedade? Agora é a minha vez. Engraçado como, de repente, esse túnel se tornou a razão da minha independência e motivo pelo qual eu enfrentaria o mundo. É como se ele fosse resolver todos os meus problemas. Será mesmo que a diferença toda está nesse furo na montanha? Acho que o túnel que transponho nesse momento é ainda maior que este aqui e ainda mais obscuro. Suas paredes andaram meio mofadas devido ao abandono. E a iluminação era precária. Mas agora chegou a hora da reforma. Não sei se há algo a minha espera no fim do túnel, mas sei que serei outra. Acho que isso tem a ver com as minhas fases e as mudanças pelas quais o meu corpo passou. Era só uma menina (a menina Gina) e agora, como num passe de mágica, me deparo com uma mulher madura (Gina, a enigmática e sedutora) frente ao meu espelho imaginário. Coisas de quem atingiu o outro lado do túnel.

- Manoel Gonçalves
Blog. Coisas de Manogon

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outro tempo
no bairro as casas claras
reses mansas
sorriem meditando em seus gramados
e a tarde ainda cálida resiste
a se tingir de outono
por trás dessas paredes
o aroma do café em torno à mesa
reúne os passos leves das crianças
a mãe e as tias
inebriadas em confidências
enquanto o prato de sequilhos esvazia
a blusa branca de rendas
balança distraída e
cotidiana
no cabideiro da entrada
e das janelas
cortinas despertadas
vestem de luz a sala
e a brisa paira
e baila sobre a mesa

Adelaide Amorim, do Rio de Janeiro, na antiga crença de que o mundo pode ser entendido e, quem sabe até, salvo pela poesia.
Blog. Inscrições

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Quimera desde menina enxergava outras terras, mares e habitantes de outros mundos. Acordava sempre cansada e com uma leve camada de poeira no rosto. Quando cresceu, a mãe não podia mais ocultar:
– Seu pai é um dragão que foi lutar em outras dimensões a mando da princesa. Ele segue cegamente suas ordens, só voltará quando ela ordenar.

A jovem despediu-se da mãe e partiu para encontrar o pai.

A princesa olhava pela janela do castelo com o rosto lívido a partida de Quimera, mas suas mãos estavam tão cerradas, que as unhas feriam as palmas das mãos.
 

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EM TEMPOS REMOTOS
Um dia, o sol encontrou uma jovem e se apaixonou. Ela o retribuiu, ficava nua no jardim e deixava os raios do amado penetrarem os poros da pele. A Terra ficou com ciúme do sol e falou com o Deus de eras antigas, que condenou o romance. Transformou-o em uma estrela sem vida. A moça quando soube, chorou por semanas. A sua mãe, para não desperdiçar tantas lágrimas, mandava-a chorar num balde para encher a cisterna da casa. Com o passar do tempo, mesmo que o amante não existisse mais, a jovem continuava a ficar nua, deixando os raios solares a tocarem.
 

Dudu Oliva
Blogs. Descarrego e Dudu Oliva

Próxima Edição – Dia 15 de Março
“Sensações de Outono”

Para participar, envie seus textos (em qualquer formato) para
lunnaguedes@gmail.com ou letícia.lo.coelho@gmail.com
até o dia 12 de março

 

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